Bonifácio, e o papão para quem não come a sopa.

Bonifácio, e os nossos “fantasmas educados”
Esperei para escrever sobre a polémica Bonifácio, porque discordo, profundamente, das teses da esquerda sobre o racismo, e da forma como abordaram este tema. Aqui fica então uma nota.
Desde logo, o racismo não é, nem de perto nem de longe, o principal problema da sociedade portuguesa, a maioria dos pobres em Portugal são brancos – o que a mim não me interessa, não me interessa debater se há mais negros pobres ou brancos, são políticas identitárias, só o debato para que retornemos rapidamente à realidade dos factos. O racismo também não é o principal problema dos afrodescendentes, ou dos ciganos, cujo principal problema não é serem negros, é serem trabalhadores pobres.
Em primeiro lugar o artigo de Fátima Bonifácio não parece fruto de uma azia de uma mulher de mal com a vida, como li tanto – isso aliás é um argumento de ataque à pessoa, quando o que interessa é rebater as suas ideias. Há um corpo tático de pensamento de Steve Banon, líder da extrema direita, que defende que devemos mentir, simplificar, reduzir, generalizar e chocar para ganhar espaço. Está definido na linha de estratégica da extrema direita, Bolsonaro é o exemplo máximo – deve-se ser bruto e básico, é anti iluminista, tem um carácter de milícias, de uso da força contra a razão. Não creio que fugiu a mão à historiadora, habituada, goste-se ou não, a um pensamento científico, totalmente avesso à generalização insustentada que fez. O que aconteceu parece-me claramente propositado e enquadrado nas novas táticas da extrema-direita.
Esta extrema-direita não cai do céu, porém. Com a crise de 2008 e a derrota das Primaveras Árabes, bem como a vitória da austeridade, surge uma linha de uma burguesia, com epicentro nos EUA, mais proteccionista, nacionalista. Há outra linha, liberal – de esquerda e de direita – que Governa todos os países da UE, que pelo contrário defende a expansão dos capitais globalizados e, neste quadro, de importação massiva de força de trabalho migrante para fazer descer o salário das forças de trabalho já estabilizadas, nos países centrais – a Comissão Europeia tem uma linha de estudo a isto dedicado, onde se perguntam como, cito de cor, impedir os salários de subirem recorrendo aos imigrantes. Em muitos países há estudos que mostram a necessidade de incorporar mais mulheres e negros qualificados ao contigente de trabalho (sobretudo nos EUA, Brasil India, etc onde por diversas razões estes sectores não trabalham na sua totalidade ou o faziam em profissões sem formação).
Entre a extrema direita e este liberalismo não surgiu nenhuma força com ideias de esquerda ou progressistas que exijam solidariedade real (material) entre povos – há palavras bonitas, mas não há fundos de greve ingleses a pagar as greves dos polacos por direitos iguais aos dos ingleses, como havia na Associação Internacional dos Trabalhadores fundada or Marx em 1864. Em 2019, pelo contrário, sindicatos, CTs e Partidos dos países pobres ficam felizes quando uma empresa é deslocalizada para um país pobre, e os sindicatos dos países ricos negoceiam em troca mais uma pré reforma dourada. E todos chama a isto “criar emprego”. E todos apoiam impostos, rendimento mínimo, taxa social de electricidade, casas sociais, uma panóplia de dependência estatal, etc , pagos pelos sectores médios dos trabalhadores para o assistencialismo dos mais pobres, e chamam a isso “solidariedade”. As políticas de pleno emprego foram totalmente abandonadas, as políticas de solidariedade também, deixando muitos trabalhadores, ameaçados de desemprego, à mercê do populismo de extrema-direita.
A esquerda – seguindo a sua linha mundial plasmada no programa de Hillary Clinton (aconselho-vos a ver o site da mesma) – abraçou a política liberal de livre circulação, em vez do internacionalismo, e a política liberal de esquerda da assistência em vez do direito e da centralidade do trabalho. Os trabalhadores ficaram assim na mão do dumping e da pobreza, entalados em impostos e uma parte, em desespero, vai apoiar a extrema direita. Os neoliberias de esquerda e de direita vêm logo acusar os trabalhadores de serem responsáveis pela extrema direita, descartando-se do facto de quem governa e faz estas políticas são eles mesmos, que estão no Governo. A extrema-direita é um plano B, o A é o governo da globalização competitiva – só não vale arrancar olhos e o “trabalho” e o direito ao trabalho e à dignidade de viver é coisa do passado…Nos últimos anos houve mais sindicatos a lutar pela reforma antecipada e o subsídio de desemprego do que pela redução do horário de trabalho aumentos salariais. Greves de solidariedade com fundos de greve em Portugal reais, em que os que mais ganham ajudam os que ganham menos, para que todos fiquem no fim com mesmo salário conheço 3, estivadores, enfermeiros e pessoal de voo/Ryanair. Destas só houve duas na Europa que implicaram solidariedade entre países, a dos estivadores e a da Ryanair – o resto foi vendo o dumping e chamando-lhe “direitos humanos”…
A política de esquerda liberal foi replicada também em Portugal pelos partidos de esquerda em nome “defesa da liberdade de circulação” e dos “direitos humanos”. Rui Pena Pires, o sociólogo que Bonifácio ataca, é o maior defensor do aumento de migrantes e a Fundação Francisco Manuel dos Santos assume que precisamos de emigrantes para impedir os salários de crescerem. Com a OCDE e a UE a reconhecem a “crise demográfica”, necessidade de mais trabalho qualificado, surge toda a questão de género e quotas para entrarem mais contigentes de força de trabalho assalariada, impedindo a escassez que iria dar necessariamente aumento do preço da força de trabalho, e dos salários. É aqui que nasce, a partir dos EUA, a forma das políticas identitárias de esquerda. Também na extrema-direita outra política identitária vinga, a do homem branco que viria resgatar na cristandade a pureza das sociedades fordistas esquecidas – é o que Bonifácio defende. Creio que a razão do debate de fundo é este pano que vos tracei. Onde, claro, se mistura tudo, migrantes, gerações descendeste de migrantes, uma suposta cristandade a qual os outros pertenceriam, enfim, uma enorme salada sem ponta alguma de racionalidade.
O relativismo científico. Andámos anos a sofrer com fanáticos do politicamente correcto, de esquerda, a explicar-nos que tudo era racista, seja a palavra, a metáfora, a piada. Numa lógica formal que não compreende que na linguagem há expressões não escritas, não formais, que podem sim senhor fazer piadas com negros – como forma até de combater o racismo, por exemplo. Ora, agora fomos confrontados com um corpo teórico racista, como o de Bonifácio, logo foi classificado de nojo, quando há tanta coisa nojenta que não é racismo. E, embora nojenta não é perigosa. Racismo não precisa de mais adjectivos, é uma forma de ver a sociedade que impede a vida civilizada em sociedade. Não podemos viver com racistas, o racismo é um perigo para a vida das pessoas. Com este artigo de Bonifácio compreendemos como é perigoso andar a dizer que tudo é racista, porque a certa altura nada é racista – é este o perigo do relativismo pós moderno, a banalização das palavras é a banalização dos actos e a incapacidade de hierarquizá-los.
Muito vieram explicar que o artigo prova que “a sociedade portuguesa é racista”. Ora essa frase é tão verdadeira quanto dizer que os negros são isto, os ciganos aquilo. Há racismo na sociedade portuguesa, como há anti racismo, como não há coisa alguma. Mas o racismo na sociedade portuguesa vem da Fátima Bonifácio? Bom, era dar-lhe uma influência que não tem. O racismo na sociedade portuguesa é acima de tudo uma reprodução da pobreza, são os bairros guetos, são as escolas TEIP com currículos diminuídos e pouco exigentes, tudo em nome da “tolerância”, são o facto de que na restauração quem serve são negros, e quem limpa são negras. São as políticas de rendimento mínimo, em vez de emprego com direitos. Sim, porque neste país todos se indignam com um artigo sem qualquer nível racista mas todos acham normal todos os dias serem publicados artigos nos jornais onde se explica doutamente que “não há trabalho para todos”, que não “podemos aumentar salários” enquanto cada vez mais gente adoece ou morre a trabalhar devido aos horários brutais. E esse trabalho, às vezes a 2 euros e 50 à hora, essa pobreza sem futuro, é uma marca de ser negro em Portugal mas é também, e mais ainda, uma marca de ser português, já que em Portugal há oficialmente 47% dos pobres. Sim, quase 50% da população não consegue viver do trabalho ou da pensão – e isso une numa tragédia comum a grande maioria dos portugueses, seja de que etnia, ou de migrantes. Mas isso implica confrontar o Governo, os Governos, e as suas políticas de reprodução social hoje – é muito mais confortável enfrentar um artigo de Fátima Bonifácio, ela é o papão da sopa. É o eterno papão do fascismo. Enquanto o combatemos deixamos a porta aberta, escancarada, a quem cria as condições reais para o que o fascismo ganhe audiência de massas.
Devo confessar-vos que raramente na vida mudamos realmente de opinião. Eu mudei há uns anos quando vi o que aconteceu à esquerda brasileira à medida que o PT se afundava, e Bolsonaro subia ao pódio. Durante anos estive convencida que o corpo ideológico do marxismo anti dogmático, crítico, radical, era – pela sua consistência e complexidade na análise das relações sociais- , um muro que nos protegia do irracionalismo estalinista. Hoje, não penso isso. Penso, e sei, que é o corpo de ideias mais denso que conhecemos – renunciar a ele nas ciências humanas é o mesmo que renunciar a Darwin na biologia. Mas não penso que Marx, ou Darwin, ou Freud, de per si, nos protegem do irracionalismo. Ao primeiro sinal de medo um corpo de ideias sólido é jogado pela janela fora e ficamos esmagados entre fanáticos, abraçados a um pensamento mecânico, que são a base activista dos – cada vez mais marginais – grupos de esquerda, que falharam redondamente em ter um projecto de sociedade universal, abraçando causas cada vez mais incapazes de ter um projecto de sociedade como um todo. Onde há medo não sobra razão. O estalinismo não foi só fruto da derrota da Rússia bolchevique, ele é parte de um corpo maior de defesa dos ameaçados – é a parte da natureza humana, selvagem, que vem ao cima quando a política organizada falha. Quando a política organizada não resolve a vida, o selvagem adormecido que há em nós agiganta-se.

2 thoughts on “Bonifácio, e o papão para quem não come a sopa.

  1. Pingback: A ignorância academista e elitista da Raquel Varela | Escólios

  2. A falta de centralidade do trabalho é uma enorme fraude intelectual e politica. O trabalho é efectivamente o suporte da vida, é determinante, é um acto de representatividade. Na verdade é o que temos de próprio, de livre e de criativo, o trabalho é o bem estar, a saúde, o gosto pelos outros, é a acção da felicidade.

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