Raquel Varela

A ignorância atrevida

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O meu bisavô tinha a quarta classe, ou talvez terceira. Viveu até aos 93 anos, crescemos com ele. Era muito pequeno, magro e a sua doçura nunca foi superada por ninguém na família. Nunca o ouvi levantar a voz. Já vos contei que quando o homem do regime lá da terra, Garvão, inaugurou a Casa do Povo e disse “viva metade de Garvão”, referindo-se à metade que tinha doado dinheiro para a Casa, empreendimento fascista, o meu avô gritou “Viva a outra metade”, o que lhe valeu uma noite na cadeia. Tinha uma mercearia no Alentejo, lá em Garvão, onde parava amiude um velho anarquista, Gonçalves Correia, caixeiro viajante, que lhe lia os livros de Tolstoi. Quando o meu bisavô, César, via televisão, o Telejornal sobretudo – porque de resto estava na carica, cartas ou bilhar -, recordo-me de o ouvir fazer comentários deste tipo para o locutor, sim, porque o meu bisavô ainda era da geração que falava com a Televisão: “não sei se o que diz é mesmo assim”, “será verdade? não domino o assunto”, “pode ser, mas não sabemos se disse tudo”.

Vem isto a propósito de uma senhora, enfermeira, que me abordou dizendo que depois de me ouvir falar dos enfermeiros escuta-me sempre na RTP, à sexta, porque pela primeira vez eu tinha falado de um assunto que ela conhecia bem, e ela percebeu que eu conhecia com detalhe o assunto. Expliquei-lhe que não só trabalho na área como antes de fazer o comentário peguei no telefone e liguei para colegas, sindicatos, Ordem, gente que concordava e discordava da greve, e que faço isso com quase todos os assuntos que tenho que comentar, de outra forma não poderia sequer formular uma opinião.

Contou-me ela na sequência que o irmão era um fã de Marcelo Rebelo de Sousa até que um dia o ouviu falar de um assunto que ele, o irmão, dominava, e pensou “este tipo não sabe nada do que está para aqui a dizer!”. A enfermeira disse-me que agora me dá o benefício da dúvida de me escutar noutros temas, “nunca mais acredito que os estivadores ganham 5 mil euros!”. Vêm estas histórias a propósito de algo que tenho pensado muito estes dias, a ausência de dúvida, o clubismo, olhar uma gorda de jornal e dizer sou contra ou a favor, opinar consoante se apoia ou não o Governo, o Partido, sem fazer a mais pequena ideia do que se passa, sem escuta ou leitura atenta, sem perguntar. Não me choca a ignorância, compreendo que é impossível dominar todos os temas, e dominá-los da mesma forma. Choca-me o atrevimento de não duvidar. Acho ainda incrível, e disso tenho uma ponta de orgulho, que o meu bisavô, com baixa escolaridade, sem internet, tenha sido sempre tão cauteloso até formar uma opinião, e que tantos hoje, com mais formação, qualificação – a ainda por cima com um jornalismo degradado pelas regras do “mercado”, isto é o fait-divers e a precariedade -, não pare, escute e leia, e pense antes de formular e formar uma opinião. Recordo só que o jornalismo está tão degradado que agora há jornais de Verificação de Factos a posteriori, quando verificação de factos antes da publicação era simplesmente a primeira razão de ser do jornalismo.

Todos os dias sou confrontada com verdadeiros absurdos que não desminto porque me obriga a longos artigos para os quais não tenho sempre tempo. Se tivesse podia fazer disto vida porque a matéria é ilimitada. E ando por aqui a ver comentários, partilhas, ideias, com frequência de pessoas com alta qualificação, e em jornais de referência, que me causam péssima impressão porque a dúvida, a curiosidade, o por quê? que temos aos 5 anos para tudo, saber mais e melhor, deviam ser parte da nossa natureza. Mas como explicou Tolstoi não há bem natureza humana, a natureza dos homens está na educação, ou na falta dela. Fomos educados para crer, no regime democrático-liberal, e essa crença tornou-se pensamento único no período neoliberal, não é só crer no “não há alternativa” ao capitalismo global, é todo um sistema de pensamento mecanicista e clubístico que se impôs, que afecta todo o campo das ideias e do debate público. Sem complexidade, sem nuances, sem múltiplas determinações. O que dá gente maçadora, cansativa, aborrecida. O meu avô, sem acesso à ciência, consciente de si, e sob uma ditadura, foi educado para duvidar – era por isso um homem interessante e interessado, que sabia ouvir, que entrava no jogo da conversa pública sem pedras na mão e ideias pequenas.

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