Morrer a Trabalhar

Hoje os trabalhadores da CP estavam indignados com a empresa ter aberto um concurso apenas para pessoas com menos de 45 anos. Compreendo a indignação. A questão é que essa estratégia tem sido seguida há cerca de duas décadas pelas empresas – baixos salários, completados com horas extraordinários sistemáticas, levam ao adoecimento da força de trabalho, que entra em incapacidade a partir dos 45, 50 anos em média. Rapidamente em pré reforma. Esta força de trabalho é utilizada até à exaustão e depois enviada para ser paga, doente, pela Segurança Social.
Pela primeira vez temos em mãos um estudo de força de trabalho do burnout fora do sector dos serviços e os dados são catastróficos, não tanto em termos de desgaste emocional – tudo indica -, mas de penosidade e desgaste fisico, a partir dos 40, 45 anos. Isso já é certo. Isto, saliento, não é da idade, é das longas jornadas e da intensidade destas. Conseguimos medir isso com precisão.
A consequência é que as pessoas nem sequer encontram trabalho aos 45 anos, sentido-se inúteis e deprimidas – o trabalho é espaço de reconhecimento. E quando encontram antes ficam doentes aos 45 anos. O Governo respondeu com algo ainda pior, se é que pode ser pior: respondeu com o aumento o período experimental para que as empresas tenham ainda mais tempo para testar quem aguenta os ritmos intensivos. Os trabalhadores são tratados como a lenda da galinha de ovos de ouro, em vez de se cuidar deles e termos uma produção racional, as empresas e o Estado abrem-lhes a barriga, tiram 1 ou 2 ovos e matam-nos a seguir, na forma – em geral – de incapacidade (embora tenhamos a mesma esperança média de vida da Europa temos a mais baixa esperança média de vida com saúde da Europa, 15 anos abaixo da Dinamarca) ou mesmo morte (aconselho o Estado a nos dar dados, os únicos que não temos, sobre o aumento de AVCs e ataques cardíacos depois de turnos nocturnos ou horas extraordinárias, bem como acidentes de automóvel, depois de 2008). E depois conversamos, mas com dados de morte e acidentes depois de sair do trabalho na mão. E não vale dizer na autópsia “paragem cardio respiratória”, porque ninguém morto tem o coração a bater…
Tenho aqui que fazer uma crítica construtiva mas indispensável aos sindicatos que, salvo raras excepções, como os estivadores, têm aceite o esquema das horas extraordinárias, que viraram permanentes. Com ele as pessoas conseguem viver com salários reais congelados ou a diminuir, mas destroem a saúde e a vida.

1 thought on “Morrer a Trabalhar

  1. Bom dia
    Muitos parabéns por este artigo.
    Gostaria de saber onde poderei consultar ou ter acesso ao estudo de burn out referido no post.
    Obrigado
    Eduardo Nascimento

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