Quem agarra este Touro?

A Adega dos Lagartos vai fechar, a melhor tasca de Lisboa. Em frente trabalha António Mexia, que recebe 6 mil euros por dia, 2,1 milhões por ano. O Manuel ficará desempregado. Era a melhor tasca do Cais do Sodré, era também a última. Comia-se peixe fresco todos os dias – , era o que havia naquele dia, desde que fresco, e pagava-se 9 euros. Tudo incluído. Gostava de ir lá e sentar-me ao lado de trabalhadores, professores, gentes da CP, Carris, velhos intelectuais, operários ainda de calças sujas a comer, alguns dias até salmonetes frescos. Sempre a 9 euros. E de conversar com o Manuel, amigo do meu pai. O Manuel era o meu chef.

Uma vez ajudei a salva um papagaio deles de ser apreendido, fiz um post e os media foram lá, tinham lá ido os fanáticos dos animais e a GNR cobrado 30 mil euros por atentando a espécie protegida. Recuaram. Cada vez que lá entrava dizia um cliente habitual, olha “não é a Sra que salvou o papagaio?”. Eu ria-me. Afinal, eu tinha salvo, e por pouco tempo, o emprego do Manuel, era o que que queria salvar com o fim da multa.

Será que agora os amigos do papagaio vão lá salvar o Manuel, ou ele pode ficar desprotegido? O Manuel vale menos do que um papagaio? A renda do prédio foi descongelada e eles despejados. À frente está o novo edifício da EDP, um mamarracho que agora tapa o sol à velha Adega. Quem vê nisto símbolo do progresso não percebe que a história anda muitas vezes em frente em direcção a um precipício. O descongelamento das rendas significou a possibilidade de acumular lucros na propriedade esmagando os salários. Mais, significou desvio de capitais nacionais para internacionais. Quem dá mais ganha mais, dá mais quem vem de fora, compra, nem vive aqui, especula com casas, alimentação, chama-lhe o Papa Francisco, cito, “economia de morte”, contra a economia da vida. É o domínio do capital rentista (rendas fixas do monopólio EDP e dos fundos), parasitário, sobre o trabalho, trabalho para o qual é necessário habitação e alimentação de qualidades. Fechar casas e tascas e remunerar fundos imobiliários é coisa de um país que já está a cair num precipício. Sim, já estamos em queda livre – tecnicamente chama-se decadência nacional, na longa duração.

O Manuel disse-me que talvez abra qualquer coisa na margem sul mas ontem a Lídia, que ficou desempregada com a falência da Moviflor, que afinal não faliu bem, disse-me que o senhorio a quer despejar no Seixal porque já há casas no Seixal T3 a 1200 euros!

O Manuel fecha ali, em Lisboa. No seu lugar vai abrir em breve uma cevicheria gourmet, com salmão de aviário, em cama de cenoura bebé; ou uma hamburgueria tipicamente Portuguese para turistas e para os funcionários da EDP, também se chamará gourmet. É tudo ridículo. Na Cevicheria encontraremos o Mexia a comer, na companhia de um democrata do Partido Comunista chinês, a comer o trabalho da Lídia e do Manuel que paga a renda da electricidade.

Ontem felizmente comi o 5º touro, nome carinhoso que tem o jantar nas aldeias da Ilha Terceira depois uma tourada à corda, brincadeira que não magoa nem touros nem homens que por lá saltam – olhem, diverti-me muito. À minha volta lavradores, estivadores, operários do Canadá, gente que admiro – vive do seu trabalho. E que ali, juntam colectivamente populações inteiras que cozinham, todos contribuem, todos fazem e não há ali qualquer negócio, só ócio, e prazer de conversar e rir. Um banquete. De comida e amizades. Escusam de vir aborrecer-me com os direitos do touro, eu estou preocupada com o direito à vida do Manuel e da Lídia. E enalteço qualquer lugar neste país, com touradas, e sem touradas, onde as relações humanas entre iguais sobrevivam à mercantilização de tudo.

Mas se realmente querem enfrentar a tourada aviso já que não é na arena que se dão as relações maiores de desigualdade e esmagamento, de pôr em risco sistemático a vida, quem põe em risco todos os dias a vida são homens entre homens, é a luta desigual entre o grande edifício da EDP e a pequena tasca do Manuel. Quem tem coragem de combater esta barbárie? Sim, quem vem manifestar-se a esta tourada, onde o Manuel e a Lídia estão sós na arena a ser destruídos?

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1 thought on “Quem agarra este Touro?

  1. Reblogged this on Velhos são os trapos and commented:
    Não me tinha passado pela cabeça, fazer um reblog de um texto que não é meu. Mas aquela tasca, ou Adega dos Lagartos, como está a acontecer com muitas outras casas, mesmo de habitação, chamou-me a atenção, pela forma preocupante, como se fabricam dramas nesta sociedade desencontrada, sem qualquer rebuço de constrangimento, por parte dos operadores das grandes decisões. O país, não pode parar. E disso, não tenho a mais pequena dúvida…! Mas será assim necessário, ter que mexer no que já está instituído há dezenas de anos, alterando uma vida tradicional, uma parte atractiva da cidade, só porque tem que ser ali mesmo, por força de decisões tidas como irreversíveis ? Talvez ainda, de alguns casos de modas, como outros projectos, a atirar para fora de Lisboa, dezenas de escritórios, em modernos edifícios apropriados, mas longe dos transportes públicos convencionais, a duas ou três dezenas de quilómetros dos centros das cidades e da concentração de transportes alternativos. Longe, vai o tempo das ruas da baixa, sempre cheias de vida e transportes ali mesmo à mão de semear, fruto de um sistema nervoso empresarial, que se concentrava nas ruas da baixa, deixando os bairros periféricos para habitação e lazer. O Tagus Parque, O Centro Empresarial da Beloura e Mira Flores, são os que eu conheço melhor e me dá, ainda que uma magra ideia, das situações calamitosas dos acessos, aos funcionários que não possuam carro próprio e tenham comprado casa, noutros subúrbios opostos, pelo atractivo dos preços das habitações, ainda que as escolas para os filhos, viessem a obrigar a uma série de voltas, antes de se dirigirem para os empregos, sem atrasos de maior…! A Adega dos Lagartos, possivelmente irá passar à história, como poderá vir a ser a da Ginginha do Rossio, como já aconteceu com outras casas. Lisboa, dispersa-se. Talvez com desencontros, difíceis de solucionar…!

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