Ensinar História é um acto de civilização

As minhas aulas no Âmbito Cultural El Corte Inglés sobre História da Europa têm-me feito reflectir sobre o poder da cultura, e a força da ignorância. Esta semana um artigo da New Yorker lembrava que nas universidades médias e pobres dos EUA o curso de história está a fechar. Mas na 1ª Liga das grandes universidades História é dos cursos mais prestigiados, e procurados. A New Yorker concluía que não somos só desiguais no que comemos, onde vivemos, o que vestimos, mas cada vez mais desiguais no acesso ao conhecimento fundamental, e à capacidade de ler e interpretar o mundo.

Já dei aulas em quase todos os lugares, Universidades prestigiadas e centrais e periféricas, associações, sindicatos, formação, e de diversos países, mas as minhas aulas no Corte Inglês são, obviamente, fora da curva. Saio de lá muito feliz, mesmo quando lá cheguei já com – às vezes – 10 horas horas de trabalho, porque sou do tipo madrugador. Quando recebi o convite pensei em que tipo de público iria ter – são cursos livres, abertos a novos públicos mas onde há naturalmente uma fasquia de clientes do Corte Inglês, são às 18.30, hora em que seria expectável haver muitos reformados. E eis que a surpresa foi total. Os meus alunos do Corte Inglês são atentos, concentrados, interessados – e isso um professor sente na pele, no olhar, até na expressão corporal. Qualquer referência que eu faço de bons filmes, literatura universal, nomes, datas, a maioria eles sabem, e ainda recomendam eles outros. Lêem e compram livros. Abdicaram do intervalo, aquilo é um prazer, não é um frete, um favor, cultura não é uma flor na lapela mas a essência da humanização, com mais cultura tornamo-nos mais humanos, não perdemos tempo, ganhamos tempo e força sobre a natureza. Têm entre 20 e 80 anos, todos os mesmos olhos grandes, atentos, inteligentes, que me enchem a alma. Não sei o recorte de classe, até porque já lá tive como alunos membros do MFA a médicos, professores a dirigentes sindicais e operários, juristas e magistrados, muitos reformados, desempregados. E muitos, são em geral mais de 100 nas aulas, cujas profissões desconheço.

O cenário até improvável desfaz o mais duro dos preconceitos, estão ali aquilo que o senso vulgar gosta de chamar, como me chamam a mim, “dondocas”. Que como eu – adivinho -, adoram roupa bonita, perfumes e bolo de chocolate gourmet. E com quem consigo debater os vários regimes políticos na Alemanha, e falar de Padura, Kostler, e Benjamin. É uma delícia. Um prazer. Sim, porque já estive em faculdades onde qualquer referência literária ou teórica não tem da parte do público a menor reacção – desconhecem totalmente a literatura universal, e não sentem vergonha por isso, não sabem, não vêem qualquer mal nisso, e portanto não querem passar a saber.

O que é um facto – indiscutível – é que somos muito melhores professores quando temos alunos que querem aprender. Quando morre a vontade de aprender, a de ensinar perde-se paulatinamente também. Como muitos professores invento cada vez mais recursos para trazer públicos para a leitura, para driblar os vídeos-resumos levo os textos para a aula e lemos em conjunto. Mas isso é um recurso desesperado já, porque o normal era terem lido em casa e trazido dali conteúdo para debate.

Não acredito que o processo educativo ou cultural seja uma democracia em que todos conversamos e todos damos opinião – como se quer fazer nas escolas públicas hoje. Uma balda pós-moderna que está a destruir liceus e faculdades. Educar é um acto preparado, planificado, com objectivos, não é uma conversa de café. A verdade não está em cada um que dizemos qualquer coisa e é a “nossa opinião”, a verdade está fora de nós, em métodos científicos, verificação, fontes etc. Para opinar é preciso saber. Porém, esse acto educativo tende a ser mais e mais democrático quando os nossos alunos, seja de que idade forem, têm pelo menos duas coisas: cultural geral e vontade de aprender.

Por alguma razão que me é estranha, hoje, camadas cada vez maiores dos jovens e adultos não se sentem mal por serem ignorantes – e aí, justamente aí, começa a nossa desigualdade. É que é impossível haver democracia quando se vive à parte dos fundamentos do conhecimento produzido pela humanidade. Quando saio das aulas, às 8 da noite, venho até a cantar para casa, só porque estive ali com eles no Corte Inglês, e falámos a partir da mesma posição cultural ou vontade subjectiva. É maravilhoso sentir que estamos entre iguais. A democracia não é, nem nunca foi, só o voto. É muito mais. Se a História for de uma minoria especial de uma qualquer primeira liga a civilização não pode vencer sobre a barbárie.

6 thoughts on “Ensinar História é um acto de civilização

  1. Bem haja por esta bela reflexão.
    Refirmafo, recentemente regressado de França, permiti-me fazer um comentário sobre os comunistas franceses e o início da resistência, lembrando que o tract de Charles Tillon é de 17 de maio de 1940.

  2. excelente texto. Há tanta gente a querer aprender. A sociedade ainda nãos adaptou às mudanças que uma maior expectativa de vida proporciona. Deveríamos ter “universidades” para pessoas que aos 40 /50 anos querem aprender coisas novas ou dar um novo rumo às suas vidas. Nessa idade e com a expectativa de vida nos 90 anos ainda estamos a meio da nossa vida, porquê estar presos a decisões profissionais que fizemos quando tínhamos 18 anos.
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