RAP e o país desVa(i)rado

Não sei como o humor pode fazer mal a alguém. RAP fez humor com um homem algemado. Mas o homem algemado foi levado assim pelos deputados e pelas televisões, que o fizeram de forma séria e racional, não estavam num programa de humor mas no Parlamento que representa a nação. RAP limitou-se a rir, de si, deles, de Vara e disto tudo, o tudo desvairado. A acção não foi dele, foi dos deputados e dos media, que têm aliás feito um sistemático espectáculo de humilhação com as comissões de inquérito acreditando assim que nos fazem acreditar que estão a fazer algo pela decência das contas públicas. Vara é humilhado mas Vale de Lobo pagamos nós, Berardo é humilhado mas a Caixa e o BCP pagamos nós, um dirigente comunista cai de uma maca e a culpa não é falta de enfermeiros, é que ele já estava velho e doente…Abre-se mais um inquérito. Um de mil que hão-de vir, a cada erro, cada falha, cada colapso dos serviços públicos. Há muito que trocámos justiça e reparação pelo show de esmagar o adversário. E há muito que sofremos no dia a dia as consequências de não expropriar o sistema financeiro, mas gritar “salafrário” a quem – diz Centeno, dizia Gaspar – não podemos expropriar porque há um “risco sistémico”. Na falta de acções reais que nos dêem bem-estar e direito a viver com qualidade e paz de espírito, os deputados oferecem-nos uma representação decadente. Que não é mais do que o reflexo da crise sistémica de representação política. Os deputados nas comissões representam-se a si próprios. No duplo sentido: são uma caricatura de si, e já não representam a ampla maioria da nação. Porque a nação não vive e paga as contas ao fim do mês com a humilhação a que são sujeitos os actores do desfalque, mas com emprego com direitos e qualidade, e um forte Estado Social.

RAP ri-se disto, e é brilhante. É um cronista de uma nação em decadência histórica, contra a maré de auto elogios de Costa e selfies de Marcelo, RAP não faz concessões fáceis e demonstra o estado a que o Estado chegou. É atacado por isso. E porque é brilhante. É brilhante num país onde o sol brilha muito, mas são esparsas as luzes do pensamento crítico. Afinal ele foi o único a perceber num espaço em horário nobre a cena Brechtiana – que o Bloco Central tinha chamado ao Parlamento uma parte de si algemada. Quem não se ri disto não percebeu bem como batemos no fundo. E continuamos a cair. O humor é subversão da lógica formal e do senso comum – RAP não bateu num homem fraco no chão, bateu na estrutura mais alta, mais forte e – até – mais armada que existe no país, o Estado.

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