Vendem a mãe

Esta semana fui ouvir fado. Passeámos por Alfama observando os “bifes” semi-nus andando nas noites geladas de Lisboa. Ia porém determinada a deixar de lado os preconceitos com os turistas. A realidade não me ajudou, uma Srª vendeu-me um pastel de bacalhau só com batata, por 1 euro e meio e pediu-me desculpa, era sincero o seu olhar de pena de me enganar; o jantar numa casa de fado conhecida tinha bacalhau à Brás a 20 euros o prato, também sem bacalhau. O vinho não tinha carta, nem nome – temos do Alentejo e do Douro, escolha, é tudo a 19 euros, preço fixo. O mais triste, porém, foi quando a fadista, que não cantava bem nem mal, me ouviu falar algo e exclamou “Aí! Fala português! Uma portuguesa, ainda bem filha!”.

A esquerda tem que fazer uma crítica radical desta globalização, e em oposição defender o internacionalismo. Globalização não é internacionalismo. As pessoas viraram uma caricatura de si próprias, desprovidas de singularidade. E o fado, senhores! Os únicos que entendiam o fado éramos nós, por isso a exclamação de alegria dela, os turistas aplaudiam como quem ouve uma melodia, sem reconhecer versos, alma, nada. Batatas, sem bacalhau. O internacionalismo implica partir da nação e do local, das culturas para somar. Juntar. Ir mais além. Isto – a globalização – é o esmagamento das culturas locais. Chamar a isto multiculturalismo é o mesmo que chamar livre circulação ao dumping social.

Quando saímos, a fadista, obviamente uma mulher de origens populares e humildes, disse-nos em voz baixa “desculpem lá qualquer coisinha menos boa, meninos”. Há mais consciência de si, e verdade, nestas palavras e gestos sobre a real desgraça que se abateu sobre Lisboa, agora moderna e aberta a quem dá mais, “sair da crise”, “turismo o nosso ouro”, do que em toda a propaganda de Medina.

Por mim podem voltar a congelar as rendas e parar o comboio da história. Para onde vamos a vender tudo, até a dignidade cultural e singular, a língua, a palavra e o significado dela? É que sem casas nos bairros não há cultura de bairro. Mas apenas uma triste caricatura, em que até eu que só queria ouvir a filosofia que um fado contém, namorar nas ruas de Lisboa e ver os namorados de hoje e de outrora nos fados, olhar cada pessoa, sou chamada a fazer parte do mercado, e a fazer de mim própria, como surpresa da noite, vejam bem, aqui está uma portuguesa…Digo-vos algo, sob a capa de sair da crise um neoliberal vende tu, até a própria mãe. E a tudo chama negócios. Vende casas, especula com trigo, vende palavras. Vende batatas e chama-lha bacalhau, vendeu um som vago e chama-lhe fado. Vendem tudo. Até não sobrar verdade a coisa a nenhuma.

5 thoughts on “Vendem a mãe

  1. Raquel,tem razão em tudo o que diz, mas uma casa de fados, pela sua natureza, é o último sítio, onde vale a pena teorizar, sobre estes temas…

  2. A morte cultural é um fenómeno histórico, as civilizações são mortais. Reivindicar hoje uma herança cultural que ninguém pode negar ?

    A nossa, está fatalmente ferida ! Não temos chance de sobrevivência na “história” se não começarmos a perceber as ameaças à nossa existência.

    Portanto é a “cultura” é o que nos permite a transformação do mundo e a defesa da soberania…..É aqui que a nossa herança natural, caída, implorará as migalhas do que era sua própria herança.

    Perigoso e subtil.
    A “expropriação” cultural ? um fenómeno muito complexo.
    Não se trata simplesmente de nos privarmos da nossa herança cultural, não na expropriação, há uma transferência de propriedade.
    O primeiro dono perde todos os seus bens; aquele que o expropria considera-os como um espólio de guerra.
    A ambição mais subtil da “Aristocracia financeira” é prosseguir com esta “expropriação”.

  3. E este povo, –triste povo!–, na sua enorme falta de Cultura e que interessa ao sector financeiro e político, ainda não percebeu o ardil em que está a cair, interessando-lhe o caminho do mais fácil, desde que chova dinheiro, seja como e de onde for!…

  4. Estamos numa altura em que não há respostas simples para perguntas elementares, e isto altera tudo…quando o que temos de mais concreto e exacto é a filosofia percebemos a necessidade de um admirável mundo novo. A vida é hoje um espectáculo de horror onde personagens vagamente humanas encenam uma existência que gostavam que tivesse acontecido.

    A esquerda desistiu das pessoas como elemento transformador, perpetuam o poder do mais forte, acreditam na negação do individuo, têm uma visão totalitária das coisas.

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