Chico, Camões

Chico Buarque venceu o Prémio Camões, que alegria. Camões, sabe-se, mendigou no nosso país, Chico é hoje uma pérola de liberdade no país de Bolssonaro. Mas é mais. Ouvi-o em Lisboa o ano passado. Quando começou a cantar a música do álbum Caravanas em que tantas mulheres no Brasil o tinham acusado de machismo por dizer na música que deixava a mulher e os filho pela amante, o Coliseu em Lisboa irrompeu numa salva de palmas geral, ao início da música, numa decisão de colectiva de “estamos aqui, não deixaremos morrer a liberdade”. Fomos milhares a bater palmas à liberdade de criação. Chico cantou aqui mais uma vez o amor livre, já tinha cantado a liberdade das mulheres livres na ironia das “mulheres de Atenas”; descreve uma crise ciclíca capitalista na queda do preço da cachaça na Opera do Malandro; a brutalidade e irracionalidade da propriedade privada dos meios de produção no “funeral de um Lavrador”. E tudo isto sem fretes realistas a qualquer seita política. É uma obra de arte, maior do que a vida de cada um de nós, maior do que os constrangimentos tácticos da triste vida política em épocas de retrocesso. A arte é o reino da liberdade. E Chico nunca deixou de falar de Amor, “cantando o amor”.
Viva a mais bela obra de música que a língua portuguesa nos deixou. Chico é eterno. Como Camões. Como diz o António Simões Do Paço “tenho a certeza de que o Camões, se vivesse hoje, também ficaria feliz se recebesse um Prémio Chico Buarque.”

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o Mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, enfim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto,
que não se muda já como soía.
Camões

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1 thought on “Chico, Camões

  1. “..Chico abraça a verdade com dignidade contra a opressão, reluz o seu nome na história, a luz que ficou na memória, e hoje seu canto de fé vai buarqueando com muito axé…” – Estação Primeira de Mangueira, Carnaval de 1998. Enredo: Chico Buarque de Mangueira.

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