Brasil, de que lado vai ficar Portugal?

Foi com alegria que li a nota do meu director da FCSH em solidariedade com a defesa das ciências sociais no Brasil e a importância destas no mundo. E cheia de esperança, contida (confesso), com a greve geral do sector da educação ontem no Brasil que juntou centenas de milhar de professores, estudantes e funcionários. Como sempre considerei o tribalismo identitário e de género um perigo para as nossas vidas, porque marginaliza a esquerda e os democratas do movimento operário, ver que o primeiro grande movimento contra Bolsonaro de massas foi protagonizado pela “classe como um todo”, em vez dos esoterismos do costume, foi lindíssimo de ver. Ainda que muitos se recusem a ver, o facto é que ao contrário das “greves feministas” e dos “Lulas livres” ontem foi transversal, teve lugar nos locais de trabalho, e liderado por sindicatos que até têm – pecado – imensos homens brancos nas suas lideranças. Como têm mulheres, negros, a diversidade como um todo. E também claro o atraso, toda a classe contém em si o atraso, se achavam que o machismo era o pior dos problemas da classe trabalhadora, mesmo da qualificada, é porque ainda não viram nada…Mas, se contém o atraso, contém também a transformação. Dá saltos, impressionantes. Ontem não houve um “ele não” contra um homem – foi uma rejeição de massas a uma política.

O que dizer de nós que vivemos subterrados na cobardia de milhões em 48 anos, e milhões (sim, 3 milhões), no 25 de Abril, renasceram como verdadeiros corajosos? Enfim, uma esperança. Fico aqui a torcer para que a greve geral marcada no Brasil para Junho traga para a resistência contra Bolsonaro desta vez o mais importante – sim, não somos todos igualmente poderosos quando se trata de enfrentar Bolsonaro. Espero, de esperança, que este tenha sido o pontapé de saída para trazer para a luta o movimento operário brasileiro, que não saiu à rua para defender Lula, mas poderá sair para defender a sua pensão, a educação dos seus filhos. São 20 milhões, é uma das maiores classes trabalhadoras industriais do mundo. Subestimamos há muito o seu peso e a sua capacidade transformadora. Confio que a derrota de Bolsonaro está nas suas mãos, e será – disso não tenho dúvidas – uma vitória para todos os povos do mundo.

Muitos perguntam se a saída de Bolsonaro não pode abrir portas a uma ditadura militar. É uma boa pergunta para quem está longe, e está convencido que quem luta o faz por gosto e não por necessidade. Os brasileiros não têm saída alguma a não ser lutar contra Bolsonaro, arriscando. Esperemos que os povos da Europa reajam apoiando a sério a greve geral de Junho no Brasil, em vez de salamaleques diplomáticos – não se brinca com as vidas dos outros. Bolsonaro não pode vencer esta corrida, ou estaremos todos mais frágeis. É hora de pensar o internacionalismo e a solidariedade a sério. Ainda estarei cá para ver uma greve geral mundial contra estes bárbaros que chegaram ao poder em cima da ignorância e da desmoralização de largas camadas da população, não tendo nada para dar a não ser mais cortes nos serviços públicos, menos democracia, e mais brutalidade. Portugal tem mais do qualquer país uma relação especial com o Brasil – curiosamente não tanto pelas relações comerciais, que não são centrais, mas pelos movimentos migratórios, a cultura, a língua, amamos todos em português, com Camões e Chico Buarque. Saibamos com coragem escolher de que lado vamos ficar.

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