Ou PS ou PSD, um país numa rotunda sem saída

O meu pai disse-me um dia ou vais para medicina ou para direito. E eu fui para história do trabalho e do movimento operário. E das revoluções.

Todos os dias nos dizem só há duas soluções para o país, ou o PS apoiado pela esquerda ou o PSD apoiado pelo PS, e também o PS pelo PSD, e o PS por Marcelo e Marcelo pelo PS. Não condeno o meu pai por aquela decisão, que me fez estar 3 terríveis anos em Direito a ler romances deliciosos, até porque enquanto ele discursava sobre a minha futura carreira brilhante como jurista dava-me para ler os melhores livros de história e levava-me pela Europa a apontar os lugares da resistência anti nazi. Sou mãe e sei bem qual a diferença entre escolhas desejadas e impedir os filhos de sofrerem em empregos subalternos. Também sei que pouco podemos fazer contra a realidade, e há duas realidades que se chocarão a vida toda, o capitalismo e a paixão deles – será uma guerra, para a vida. Hoje os pais conduzem os filhos para gestão e engenharias. Ora, é nas engenharias onde estão, pensa-se, mais de metade dos alunos que não acaba o curso ou detesta-o para a vida inteira. E os consultórios de psicanálise estão apinhados de gestores. Muitos foram alunos brilhantes. E frustrados. Nunca serão felizes no seu trabalho.

Soubemos esta semana pelo Inquérito ao Emprego do INE que o salário real caiu com o Governo PS. E também esta semana pelo Eurostat que os impostos aumentaram com o Governo PS. Não houve devolução alguma de rendimentos, vou repetir, não houve. É mentira e é uma tremenda irresponsabilidade repetir esta inexistência. O que houve foi menos cortes diretos no salário, mas ainda assim cortes reais com a subida dos preços. E ainda mais carga fiscal indirecta – ou seja, o que vinha em decadência no Governo PSD continuou com o PS. O resultado disto é a ruptura das direcções sindicais pois, pese embora a propaganda de “devolução dos rendimentos”, os trabalhadores há muito se apreceberam que chegam com cada vez mais dificuldades ao fim do mês. Há mês mas não há dinheiro.

Nunca apoiei este Governo com o argumento de que o outro – que nunca apoiei também – era pior. Também não fui para Medicina ou Direito. Fui estudar a revolução e o trabalho. Quando publiquei a Breve História da Europa dei-a a ler ao meu pai antes de a publicar. Em duas semanas penso que ele nem a sesta sagrada fez, devolveu-me cada página anotada, fez críticas deliciosas à mão em cada folha, rascunhos que guardo para a vida inteira, que iam deste “que MrXd$ é esta?”, “95% por cento de votos? só se levaram os velhos às costas!”, “pareces um alentejano a explicar uma saída de uma rotunda, não se percebe nada”, a “maravilha”, “muito bom”, sobretudo uns mais discretos “correcto”. Incorporei todas as críticas dele, e tentei sair da rotunda e fazer um texto límpido. Instigada pela sua leitura cuidada. Foi a sua forma de dizer-me, 23 anos depois, que eu fiz bem em decidir viver e trabalhar apaixonada. Que essa coisa do mal menor mais cedo do que tarde nos mata de tristeza – e sem dinheiro para comprar sequer um bom vinho para fingir que está tudo bem.

4 thoughts on “Ou PS ou PSD, um país numa rotunda sem saída

  1. Raquel: este seu texto faz mais pela história do trabalho, pela Vida, do que todas as análises sobre o “nosso” percurso no mundo do trabalho. Sei o que foi essa imposição: “era suposto” ser engenheiro.
    Consegui a custo uma saída “de emergência”. Fui para economia, depois gestão, depois estudos europeus, depois políticas públicas. No caminho li história, filosofia, psicologia. Economia era um caminho entre nada e coisa nenhuma.
    A partir daí andei sempre à procura. É que na minha infância e juventude já tinha lido Dickens, Twain, Tolstoi, Balzac e uma imensidão de outros. Na leitura estava a resposta a todas as perguntas. A história e a História sobrelevavam a Vida. Dava-lhe cor, sentido, tangibilidade. Então li Beevor, Hastings, Chaunu, Delumeau. A “moeda” só por si era desinteressante. Na sua função de troca, entesouramento, medida.
    Só era interessante o Homem na sua individualidade, história, relação com os outros Homens. Amei então Análise Social; e História Económica e Social; e Estudos Aplicados de Economia… pois mesmo esta última deixava antever pessoas por trás dos números. Pessoas que sofriam. Que chegavam ao fim do mês com rendimentos bem mais inferiores do que os produtos per capita que mediam retirando-lhes fôlego e dignidade. A desigualdade, a injustiça começava na troca.
    Li nessa altura Adam Smith; também Marx, Kenneth Galbraith, Samuelson, até Friedman e Hayek… nada ficava por descobrir, pois só a dialética faz perceber como somos seres (sempre) incompletos.
    Capitulei por dentro sem soçobrar. Aproveitando cada despertar de conhecimento. Amante da leitura, literatura, história, psicologia, das letras, agarrei então como fez o economista sociólogo Talcott Parsons, o lado brilhante das ciências sociais e humanas: a economia como referencial técnico não resolvia os problemas dos Homens.
    O lado em que os Homens se encontram. O das relações que encetam por viverem fora do estado selvagem (mesmo que este pareça às vezes pouco ter aprendido com a natureza), o das relações sociais. E… fui escrevendo e ficcionando para ser feliz que… a um mal menor há sempre um bem maior do que o mundo quer impor. Como faz falta a reflexão para nos sentirmos felizes no nosso pequeno mundo. Que texto empático e revelador o seu. Que orgulho e enorme bem-estar nos fez sentir, percebendo ainda haver quem se debruce sem preconceitos ou outras peias sobre cada acto e cada gesto. Somos… na realidade… passado. Mais do que presente. Somos a cada momento história em toda a sua dimensão e longitude. Somos seres humanos. A Raquel é um dos grandes do meu país.

  2. Cara Profª Raquel,
    Há um livro cujo nome é “Torturem os Números que eles Confessam”. É assim, Podemos ser fazer leituras de acordos com opções ideológicas. Mas a realidade é outra. Vale bem a pena ler os números sem quaisquer enviesamento ideológico.
    MR

  3. São estes raciocínios que servem de alerta para quem só anda atrás de diplomas, mas sem a menor noção daquilo que quer fazer da sua vida, senão olhar ao valor monetário e ao que ficará escravo, de si próprio, para a vida em que percorrer este planeta. Sempre defendi esta visão, considerando que nada mais saudável temos, que a felicidade de sermos livres nas nossas opções e sem andar a reboque de nada, nem ninguém… Ao nos tornarmos escravos de nós próprios, maior será a escravatura perante aqueles que disso irão usufruir e num maior controlo aos subservientes, só que, quando não há cultura, porque não interessa a alguns e que nos (des)governam, é difícil perceber tal ponto de vista, sendo o caso deste país à beira-mar “adormecido”. Obrigado, a quem vê mais além…

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