O Menino que queria ter livros

O menino que queria ter livros
(depoimento de um menino nascido no Alto dos Barronhos, em 1963, um bairro de barracas às portas de Lisboa, na freguesia de Carnaxide, concelho de Oeiras)

Assim como o menino que queria ter livros, o bairro de barracas crescia também ele devagar, controlado à distância pelos fiscais da Câmara e pela GNR, que não queriam mais casas daquelas onde as paredes de lata e madeira vestiam paredes de tijolo, que no seu interior faziam uma barraca ser casa, paredes meias com as casas ricas, as vivendas, de Linda-a-Velha ou de Carnaxide.
E o bairro tinha na zona mais alta os alentejanos e, no sopé da antiga garganta vulcânica, os nortenhos, sobretudo transmontanos… uns procurando ver ao longe a planície transtagana, onde regressavam amiúde nas tardes de domingo, encostados ao balcão, dando voz a modas e cantigas arrastadas, iludindo a saudade… outros recolhendo-se dos frios rijos que lhe lembravam as frinchas sempre presentes da barraca quando soprava forte o vento, sentando-se em volta do largo onde o senhor Henrique tocava um forifori numa concertina que debitava, estridente, sempre o mesmo som.
Era um tempo em que o menino com seis, sete anos, ia do Alto dos Barronhos para a escola nova de Linda-a-Velha, atravessando a auto-estrada, engolindo enregelado a manhã crua que o assustava, calcorreando sozinho as tardes escuras que o levavam de regresso a casa.
Sem cantina na escola, nem outro sítio onde almoçar, o menino das barracas comia uma sopinha de feijão na taberna do senhor Faustino, à qual juntava um ovo mexido, ou um arrozinho com um bocadinho de carne que vinha, de casa, num termo. E ao pé dos calceteiros, dividindo mesa com pedreiros e pintores que faziam crescer a periférica Linda-a-Velha, o menino que queria ter livros bebia um sumol e, às vezes, debicava metade de um copo de vinho tinto, pelo risco branco no vidro grosso dos copos de dois, para ajudar uma digestão mais difícil em dias de feijoada ou cozido, crescendo assim mais forte, que delgadito era ele…
De vez em quando, quando a hora do almoço era com a mãe, o menino que queria ter livros, entrava pelas traseiras para a cozinha da casa da “senhora” onde a mãe andava a dias num ganha pão difícil arrebanhando horas de casa em casa das senhoras. E espreitava o menino aquela biblioteca onde um dos dias, que os acasos têm asas, o Doutor Vitor lhe perguntou: já ouviste falar do Virgílio Ferreira? E do John dos Passos? Não, então quando vieres cá a casa, sentas-te ali e podes ler à vontade… e o menino que queria ter livros, começou a olhar a biblioteca na casa de dois pisos, de madeiras a cheirar bem, grandes janelas que respiravam um jardim de relva sempre verde e uma nespereira pintalgada de frutos laranjas, sentado num sofá de couro e sempre brilhante.
Mas o menino continuava a calcorrear os quase 10 quilómetros de ida e volta à escola… fugindo à lama que inundava os caminhos, fazendo os trabalhos de casa nos intervalos das casas porque a noite e o candeeiro a petróleo não permitiam fazê-lo na barraca, crescendo entre um bairro rasgado por um grande esgoto a céu aberto, sem luz eléctrica, sem água potável em casa, sem casa de banho. Correndo por entre estrumeiras, campos de trigos, quintas e estercos nas brincadeiras que se estendiam sem hora aos fins de semana.
O final da tarde de domingo, era para ouvir rádio, com a mãe, muitas das vezes espreitando sem perguntar porquê, os olhos de lágrimas da mulher que a passar a ferro chorava ao ouvir os pedidos de músicas e as saudades dos soldados que habitavam a distância, numa guerra que a mãe do menino não queria sua. Essa mãe que, como quase todas as outras mulheres vestiam eternamente de luto, e sem saber ler nem escrever se questionava sobre aquele filho que gostava de músicas de mortos, quando a música clássica, no final do programa, invadia o pequeno quarto de costura, que era também sala de brincadeiras, com uma chapa de metal no chão a acolher a braseira, onde a máquina de costura incansável, paga a prestações, juntava farrapos e fazia roupas.
Mas um dia veio esse dia de Abril que abraçou toda a gente em delírio e o menino sem perceber porquê encontrou o bairro de barracas mais luminoso. E tudo parecia diferente… os homens falando alto, as mulheres num corrupio de novidades, os miúdos sonhando crescer para poder ir aos sítios onde os grandes iam… e depois foi poder entrar nos cafés, ver crescer em reuniões cheias de gente a associação de moradores e saber que, mais dia menos dia, teria uma casa nova… e na sede da associação de moradores um parque infantil, fazer atletismo com prémios, aprender xadrez, ver teatro, filmes de 8 mm, ouvir vozes de homens e mulheres cantar a gaivota ao som de uma viola, que passou a ser o instrumento que queria seu, e poder requisitar livros na biblioteca.
E o menino que queria ter livros para ler, passou a ter uma biblioteca que lhe diziam ser sua. O menino que queria ter livros percebeu que afinal podia continuar a estudar e a ler livros. E a fazer redacções que descreviam como era viver no bairro onde as mães de uns meninos tratavam dos outros se alguém estava a trabalhar. E depois veio a televisão a bateria, o frigorífico a bateria, antes da luz eléctrica e da casa nova.
E aprendeu como ensinar a ler e a escrever a mãe dele com um método criado por um senhor chamado Paulo Freire e o menino começou a comprar livros que, afinal, mais pessoas em casa podiam ler. Uma casa de verdade… com alcatifa, com casa de banho, com cozinha e um fogão de muitos bicos. Com a luz à distância de um pequeno gesto… E banheira…
E o menino que deixou de ser menino, começou a comprar livros. Até que um dia escreveu este texto e se lembrou que a primeira boneca que a sua mãe teve, foi ele que lha ofereceu, quando teve o seu primeiro ordenado. Que afinal não foi aos 13 ou 14 anos, como parecia ser certo num tempo já distante de medos e cinzentos, mas aos 18 anos quando começou a trabalhar de dia e a estudar à noite, porque sonhava poder escrever um livro. Um dia. Não importava quando, porque o tempo era agora verdade, puro e límpido, porque nascido outra vez naquela manhã “límpida e pura, aquela promessa antiga, duma manhã futura”, como escreveu uma poetisa chamada Sophia e que o menino, que queria ter livros, encontrou nas vozes de toda a gente, no meio da rua inundada de sorrisos onde se podia crescer livre!

Miguel Rego
Arqueólogo, nascido e criado no Alto dos Barronhos (Carnaxide, Oeiras)

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