História do Povo na Revolução Portuguesa

«Isto é o povo, isto é o povo, isto é o povo!» Praça de São Bento, 13 de novembro de 1975. É aqui que estão sequestrados a Assembleia Constituinte e o Governo, cercados por uma massa de quase 100 000 pessoas, na sua maioria operários da construção civil. O cenário é quase irreal: estamos na Europa, na solarenga Lisboa, capital desproporcionalmente grande de Portugal, último império colonial da história. Ao Palácio de São Bento e ao primeiro-ministro não chega nem alimentação, nem cobertores, a não ser por helicóptero. Cá fora, uma gigantesca manifestação de trabalhadores, que se acotovelam e se erguem, literalmente, uns por cima dos outros nas escadarias do palácio, com bandeiras vermelhas e faixas, gritando palavras de ordem.

De repente vê-se um camião de cimento a entrar e descer a praça. A betoneira atravessa a massa de manifestantes que cercam a Assembleia que, com sorrisos e punhos erguidos, se afastam para deixá-la passar. Em cima, dois homens. Um deles de calças de ganga, camisa aberta, cigarro na boca, sorri triunfante para a multidão. Com uma mão agarrada à betoneira e outra erguida, grita junto com os manifestantes: «Isto é o povo! Isto é o povo! Isto é o povo!»

Quando decide suspender o Governo de funções, uma semana depois do cerco à Assembleia Constituinte, a 20 de novembro de 1975, o almirante Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do VI Governo Provisório (ao fim de 16 meses de revolução já tinham caído cinco governos!), no seu estilo frontal e indiscreto, bonacheirão, confessa a desautorização do Estado, respondendo, visivelmente irritado, a uma jornalista que o questionara sobre a situação militar: «A situação, tanto quanto eu sei, continua na mesma: primeiro fazem-se plenários e depois é que se cumprem as ordens! »

Estávamos no meio de uma situação clássica de duplo poder – os de cima «já não podiam» e os de baixo «já não queriam» –, refletida na desautorização do poder estatal, política e mesmo fisicamente cercado. Foi provavelmente o momento da revolução portuguesa mais próximo da insurreição, ou seja, aquele momento das revoluções em que o deslocamento do Estado, a tomada de poder sob a direção dos trabalhadores, é possível .”

In História do Povo na Revolução Portuguesa (Bertrand, 2014)

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