Passe Social, nem tudo o que parece é

Uma nota sobre os passes sociais. Sou a favor da medida. Aliás, penso ter sido a primeira pessoa publicamente, há 6 anos, a ter defendido a total gratuitidade dos transportes (tendo como resposta do outro lado que eu era uma «sonhadora»). De todas as medidas que o Governo tomou esta é a única que não é assistencialista (focalizada nos pobres) mas de Estado Social (Universal). Apoio-a por isso. Mas não vale a pena deixarmos de reflectir sobre o que está em causa. Com esta medida ficamos melhor, mas não ficamos bem. A prazo podemos ficar pior. Explico-me.

Há escassez de força de trabalho, os salários são muito baixos e a especulação atirou as classes trabalhadoras para 30 e 50 km do Porto e Lisboa – ou bem que o Governo tomava esta medida ou as pessoas não conseguiam sequer vir trabalhar, e as empresas não tinham (e não têm) trabalhadores.

Mais, como esta medida não é acompanhada por medidas de desenvolvimento do interior ou do litoral fora de Lisboa e Porto – com comboios, por exemplo, a servir regularmente pequenas cidades – o que vai acontecer é que esta medida vai favorecer a macrocefalia do país e atolar mais pessoas nas grandes áreas metropolitanas, porque justamente quem vive em Torres Vedras, ou Santarém vai pensar que é benéfico vir para o Seixal ou Setúbal, ou Albarraque.

Ou seja, esta medida visa a concentração de população/força de trabalho nas áreas (já) concentradas de produção de valor. Chama-se capitalismo e tem como consequência um enorme desequilíbrio do território, campo/cidade, interior/litoral e má qualidade de vida para a maioria da população. Embora tenha um sentido óbvio de justiça social, ela não é uma medida correcta se olharmos opções gerais de gestão do conjunto da sociedade, é isso que quero dizer. Digamos assim, faz o capitalismo menos brutal a curto prazo – diminuindo custos de reprodução da força de trabalho – mas a médio prazo aumenta a concentração de riqueza e a má gestão do território.

Alternativas: acabar com a rendas especulativas, ter uma politica pública de casas gratuitas de habitação de qualidade nos centros das cidades, fomentar o comboio entre pequenas e médias cidades (fazendo pequenas cidades florescerem) e sim, ter transportes públicos gratuitos – em todo o país. O que me choca nesta esquerda da Geringonça é que na luta contra uma direita que não tem nada a oferecer ao país, cai na incapacidade total de pensar alternativas e no eleitoralismo que leva ao ufanismo. Ao ponto de celebrar esta medida, sem pensar que podemos e devemos ir mais além. Ter uma política de sociedade, como um todo. Para todos.

2 thoughts on “Passe Social, nem tudo o que parece é

  1. Responder a uma necessidade imediata é sempre algo premente, diminuir a distancia que separa a condição individual de cada um é sempre agregador, mas isto nesta altura é absolutamente desrespeitador.

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