A Violência não é doméstica, é endémica (e a família é o lugar menos violento)

Só quem anda fora do mundo é que acha que depois de jovens matarem crianças e se suicidarem; matarem imigrantes numa mesquita e um prédio mal construído ter caído em cima de uma escola na Nigéria nós temos um problema de violência «doméstica». Sempre tive dúvidas que o crime de violência doméstica protegesse mais a mulher – os meus amigos juristas têm-me confirmado que há fortes possibilidades de juridicamente ser pior para a mulher do que a configuração de crimes já previstos, como homicídio e outros. Porém o que nunca tive dúvidas é que é errado sociologicamente falar-se de violência «doméstica». Há um mundo brutalmente violento, que começa ao nível do Estado e das relações autoritárias dentro das empresas, pois como dizia um comentário anónimo no meu blogue a propósito das doenças da Visteon «fazer mal à saúde de alguém fora de uma empresa é crime mas dentro de uma empresa é “acidente” normal, ou “esforço repetitivo”». Se uma empresa maltrata um trabalhador com exaustão e doenças de excesso de trabalho porque o marido não vai reproduzir isso? Ora a resposta é que o marido, na maioria da vezes, não reproduz isso, pelo contrário, trata infinitamente melhor a mulher do que a empresa, que com frequência ganha prémios de “sustentabilidade”, «respeito ao meio ambiente”, «excelência», «melhor lugar para trabalhar».

Em suma, a família não é o lugar por excelência da violência – é, ao contrário, para a maioria da humanidade, o lugar de protecção e amor, ou cuidado, pelo menos, face a um Estado e a uma economia doente, brutal, criminosa. Com tanta histeria à volta do feminismo – sim, eu escrevi histeria (impossibilidade de pensar seriamente) – não conseguimos pensar nada além do nosso umbigo, ou, da nossa casa (que é quase o mesmo). Acabando a culpabilizar a casa por uma violência que começa muito antes da casa, e termina muito depois dela. Ela, a casa, aliás, parece ser o último lugar mais ou menos decente para a maioria da humanidade. A família, com o Estado e a economia caóticos, e a crise de sindicatos, partidos e associações, foi uma das poucas instituições que conseguiu na sua maioria sobreviver à violência, que fora dela se tornou endémica – e por isso mesmo a família tornou-se um lugar que aguenta todos os problemas. E por isso mesmo aguenta cada vez menos, porque na família somos poucos para a magnitude dos problemas que nos batem sempre à porta. O feminismo, ao colocar os dramas da sociedade na suposta sociedade patriarcal, afasta-se cada vez mais da origem dos problemas – e por isso, está cada vez mais longe das soluções.

1 thought on “A Violência não é doméstica, é endémica (e a família é o lugar menos violento)

  1. “Mas será que eu enquadrei a violência doméstica dentro da luta de classes e das relações de produção?” — pensará o pobre Marx ao ler Raquel Varela.
    Vitor Miragaia

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