Inversão de valores

Uma das magias do pensamento económico dominante é tratar as pessoas como coisas e as coisas como pessoas. As pessoas cabem numa folha de Excel, as bolsas de valores não, elas têm vida, têm humores, e as mercadorias sofrem de boa ou má saúde.
Visitei a fábrica Visteon no Dia Internacional da Mulher. O que vi foi centenas de operárias e operários num cenário do século XIX – no mínimo 8 horas de trabalho, a laborar 24 por dia em turnos esgotantes, em pé (“quando em encosto um bocadinho que seja logo passar um suprevisor a impedir-me de me encostar”), em frente a uma máquina automatizada, não apenas queixosos, vi-os pálidos, tristes, com dores nas pernas que eram explícitas da face; e tudo isto por um salário de 770 euros líquidos, ou seja tecnicamente um salário abaixo do mínimo real para se viver (que está calculado em mil), um salário do século XIX. Não acredito num país assim, que mostra estes resultados como «as exportações estão de boa saúde».

 

1 thought on “Inversão de valores

  1. Porque razão é permitido atentar contra a integridade física de alguém em espaço privado coisa que em espaço publico se traduziria rapidamente num processo criminal? O conjunto de regras e normas que são estabelecidas nas empresas têm como efeito a desresponsabilização de quem tem a crueldade como modo de vida, tudo sob o manto da tecnicidade ou da necessidade prática de laboração. O trabalho como necessidade educa as pessoas e aprender a ser menor é inaceitável. Esta sociedade diminui em vez de aumentar, diminui a qualidade do que é produzido.

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