Greve Feminista

O Bloco de Esquerda anda freneticamente a chamar uma greve “feminista”, uma paralisação que não existe, típica de ONGs e activistas, desvinculada da vida real de quem trabalha. Ora, houve uma greve maioritariamente de mulheres por 2 meses neste país, a dos enfermeiros, onde as questões fundamentais do tempo de trabalho, lazer e familiar estiveram em cima da mesa porque com baixos salários as horas extraordinárias são inevitáveis. Nunca se ouviu nada aos activistas do BE que não “dúvidas” sobre a greve, e um silêncio confrangedor sobre a requisição civil do Governo que apoiam. Em suma, o Bloco apoia uma greve de mulheres que não existe. Quando existe, não apoia.

Confesso que a esta altura da vida oiço a palavra “activista” e penso logo em fugir – o que faço sempre que posso. A expectativa é que o ou a activista me vai pregar uma seca moral de grande elevação humana, uma cassete dogmática, totalmente desvinculada de qualquer compromisso sério, e sem a mais vaga ideia do que é o mundo do trabalho. Incluindo naturalmente a repetição de falsas estatísticas. Por exemplo, esquecem sempre de referir que as horas de trabalho doméstico a mais das mulheres são as mesmas horas extras dos homens em trabalho pago, ou seja, ninguém trabalha mais do que ninguém, e está por provar que estar numa linha de montagem seja mais agradável do que lavar a roupa.

Dito isto há muito que quer a linha de montagem quer o trabalho doméstico deviam ter sofrido uma drástica redução da jornada, como é óbvio, e uma socialização, em que o Estado devia assumir estas tarefas de forma a tornar menos penosa a vida dos casais em sociedades urbanas (deviam existir bons restaurantes públicos subsidiados por bairro, por exemplo, ou lavandarias públicas, facultativas mas disponíveis). Enfim, pelo Manifesto o 8 de Março dá para perceber que o mal do mundo não são os “machos” – é a falta de horizontes políticos, uma crise sem precedentes na capacidade de olhar o mundo e transformá-lo.

2 thoughts on “Greve Feminista

  1. Olá,

    Fiquei surpreendido com a ideia de existir um equilíbrio entre as horas extra de trabalho doméstico das mulheres e horas extra de trabalho pago dos homens. Seria possível indicar-me os estudos ou relatórios que apontam para essa igualdade?

    Obrigado

  2. mas de que greve dos enfermeiros fala?

    presumo que será da chamada greve cirúrgica, porque como se vai aperceber se parar para pensar, existem diversas frentes negociais e de greve, conduzidas por diferentes sindicatos, com diferentes níveis de reivindicação.

    tenho ideia que, inclusivamente, houve um período que as greves se sobrepuseram, ou seja, estava a decorrer a “greve cirúrgica” num determinado número de hospitais, decretado por 2 sindicatos, e outra greve noutros hospitais, decretada por outros sindicatos e com outras reivindicações.

    estas greves mais agressivas, ditas “greves cirúrgicas”, foram decretadas apenas por 2 sindicatos, curiosamente, ou não, os mais recentes e ainda com uma curta história sindical, sendo um deles liderado pela anterior vice bastonária da Ordem dos Enfermeiros e candidata a bastonária derrotada na última eleição.

    e quais eram / são as principais reivindicações postas em cima da mesa por estes dois sindicatos (e só por estes dois sindicatos)? o aumento do vencimento base de entrada na carreira de cerca de 1200 euros para 1600 euros e o estabelecimento 35 anos da idade da reforma aos 57 anos de idade e 35 anos de trabalho.

    não estará baralhada com tantos sindicatos e tantas greves à mistura?

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