Morreu Colin Barker

Morreu o grande historiador dos movimentos sociais britânico Colin Barker. O Colin nasceu em 1939. Os seus trabalhos mais notáveis são sobre a história das revoluções no século XX, em particular a revolução polaca que começou com o Sindicato Solidariedade. Entre as suas obras está a coordenação de um livro onde a revolução portuguesa, dos cravos, é estudada. Revolutionary Rehearsals. Foi fundador da Conferência anual que decorria na Universidade de Manchester de História dos Movimentos Sociais, protestos populares e futuros alternativos. É autor do mais importante livro sobre movimentos sociais na minha opinião, Marxism and Social Movements. Colin foi durante décadas membro destacado do SWP inglês, organização trotskista inglesa, com quem rompeu há poucos anos, mantendo-se no campo do marxismo politicamente. Colin como sociólogo e historiador aderiu em pleno à historiografia “from bellow” inglesa, e inovou-a com um conceito central que hoje urge mais do que nunca – o conceito «do movimento social como um todo» onde ele se opunha à fragmentação e defendia a totalidade marxista para analisar a sociedade. Em tempos de identitarismo galopante o estudo da sua obra é urgente. Tive a honra de ele escrever na capa da edição inglesa do meu livro História do Povo na Revolução Portuguesa, de que ele foi .- só soube mais tarde – revisor anónimo que recomendou à editora a publicação. Estava agora a fazer uma resenha do livro, mesmo sabendo-se muito doente.
 
Bem sei que para muitos isto não tem significado mas quando nos especializamos num tema muito profundamente temos poucos pares, poucas pessoas com quem conseguimos realmente ir ao fundo das questões, ultrapassar o senso comum, mesmo o senso comum entre historiadores. O que eu penso sobre a revolução portuguesa posso divulgar entre milhares, mas as minhas mais sérias dúvidas só as posso debater com uma dúzia de colegas (quase todos estrangeiros, por paradoxal que pareça). Colin conhecia cada conceito, cada data do biénio 74-75, cada questão, bastando por vezes uma pequena pista. Tinha dúvidas sem ser relativista, era um teórico com saber empírico; era determinado e apaixonado, tanto quanto rigoroso. Fui sua discípula tardia, sou estudiosa e professora da sua obra. E – acima de tudo – eternamente grata pelo que aprendi com ele.
 
 

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