O meu vizinho

Há uns anos ia a descer de carro para casa quando vi um vizinho, com quem nunca tinha trocado mais do que diário bom dia, a descer a pé para casa. Estávamos ainda a 1km de casa e ele vinha do centro de saúde. Parei e depois de o convencer que não me incomodava, que era um prazer, convenci-o a deixar-me dar-lhe boleia.

Anos depois, muitos anos depois, agora, precisei de uma pequena garagem para deixar as bicicletas. Procurei em todo o bairro mas não havia nada. Vi um senhor entrar na porta do meu vizinho, que tem um pequeno arrumo de entrada e perguntei se poderiam, a troco de uma contribuição, deixar-me colocar ali as bicicletas. Ele disse que sim senhor, qual dinheiro qual quê, temos que ser uns para os outros. Insisti que me dissesse pelo menos o que o pai deles gosta. Acredito não na caridade e na compra, mas na retribuição comunitária. E em acções. Obrigada em palavras não chega. Agradecemos em acções. Convido sempre quem me convida para jantar. Gosto genuinamente da palavra retribuir. Calculo com precisão quanto tempo de trabalho custa alguém a fazer-me um favor, ou um convite para jantar, ou uma pequena ajuda, e devolvo na mesma quantidade de tempo de trabalho, seja tempo a fazer o jantar especial que cozinhei ou o vinho caro que resulta do meu tempo de trabalho. Vinho, ele gosta de vinho, fomos por isso lá levar um vinho, bom, belíssimo. Que mesmo assim não paga a garagem. Muito menos paga o que ele, aos 88 anos, já fez e o que vai cá deixar pelo seu trabalho.

Ora, fomos em família, todos. Ele tem 88 anos. E ficámos a saber que tem uma ferida que há mais de um ano não sara. E que as enfermeiras vinham a casa fazer o penso, e que agora como ele mudou do segundo andar para o R/c ele tem que ir ao centro de saúde, à chuva, de inverno, junto de pessoas com gripe porque só tem direito a domicilio se viver acima do r/c. Quem foi o idiota que criou esta lei? Não foi um idiota. É uma racionalidade caótica, aqui chegamos quando achamos que a saúde é um negócio. Na Inglaterra tentam introduzir há muito o care e o Health. Saúde é gratuita para quem é produtivo, care (cuidado) é pago porque as pessoas já não estão a trabalhar. Para aqui caminhamos com o pagamento escalonado de cuidados continuados, mesmo que eu e ele, ele muito mais do que eu, tenhamos pago ao Estado dezenas de anos de impostos.

O Estado burocrático não somos todos nós – eu dei boleia, porque sim; ele ofereceu-me muitos anos depois um lugar na garagem porque sim. Nunca assinámos um papel. Nem um formulário, nem um relatório.

Um bem haja aos meus vizinhos, ele e seus filhos. A rigor, nem sei se ele se lembra da boleia ou é simplesmente assim, generoso, mesmo com um Estado que o mal trata desta maneira obrigando-a a subir 1km para fazer um penso, ou pagar por isso.

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