A greve dos enfermeiros

A greve dos enfermeiros continua a gerar imensa polémica.
 
Costa ameaça ficar como o “racha sindicalistas” se continua a insistir que os enfermeiros estão a fazer uma greve selvagem, mas destina 4 mil milhões do Orçamento de Estado, o tal que nós pagamos, a ajudar a salvar investidores privados na Banca – o que, sabemos, é a lei da selva da usura. Usura era uma forma de riqueza que até o menos cristão dos padres na idade média condenava como forma de viver.
 
Dito isto: a greve pode ser dirigida pela direita? Pode. É. Talvez. Não sei. Ando cansada de tanta superficialidade a comparar esquerda e direita. Num país onde a esquerda parece estar em todo o lado nos discursos, e em lado nenhum na prática. Por isso, deixemos esse imbróglio de lado e falemos de factos, os que conhecemos, que não é muito.
 
Os enfermeiros estão exaustos. Podem os doentes morrer ou eles, de cansaço. A violência da greve em causa – que não pode ser negada – é a violência social latente da destruição do SNS. A janela de cura de um doente é curta. Estes hospitais são fulcrais. Uma categoria só parte para uma medida destas quando está no limite. É este o ponto real onde chegámos. Partem para uma greve que é, nos enfermeiros, a mais mobilizada e com apoio que teve lugar em Portugal, pelo menos desde que estudo greves. São acusados de culpa em «mortes» de doentes em directo e mesmo assim não cedem. Isto não vos faz pensar? A mim faz.
 
É evidente que a base de apoio é extensa e sólida. É evidente que estão dispostos a tudo – este ponto de «limite» não se atinge pelo papel de uma Ordem, um sindicato ou um fundo. Não há 74 mil enfermeiros manipulados, contra a sua vontade, Este grau de determinação só existe quando sentem que nada têm a perder, e que pior já não podem ficar. O Governo tem que parar de mandar responsabilidades para eles e perguntar pelas suas.
 
O fundo de greve é feito com base na recolha, na maioria, de pessoas identificadas. Há 74 mil enfermeiros, basta cada um dar 10 euros e têm 740 mil euros. Basta cada um dar 3 euros, mais o pai e a mãe e têm 740 mil euros.
 
Muitas destas cirurgias são de grande complexidade, não podem ser transferidas para o privado – nem o privado as quer…porque não tem capacidade.
 
Em suma. Creio que não vamos a lado nenhum lançando suspeitas e calúnias. Menos bodes expiatórios, e mais negociação e mediação por parte do Governo é o que se exige. E com rapidez, que há doentes mal, há enfermeiros mal. Há um país à espera. À espera que o Governo use os nosso impostos pela nossa saúde, e não a requisição civil para continuar a proteger um sector financeiro falido, que esgota a força de trabalho nos serviços públicos. Precisamos de um Governo justo para com as pessoas, e não de discursos anti sindicais inflamados.

4 thoughts on “A greve dos enfermeiros

  1. os sindicatos têm, em geral, um “fundo de greve”, constituído por parte da quotização dos seus associados e que podem ser reforçados por outro tipo de contribuições, sujeitas a regras de transparência que os sindicatos estabelecem e que estão descritas nos respectivos estatutos.

    mas esse fundo destina-se exclusivamente aos seus associados.

    no caso da actual greve dita dos enfermeiros, embora apenas destinada a enfermeiros do sector público, a greve é financiada de uma forma que não é exactamente transparente, mas pode vir a ser, e todos os aderentes, sejam associados ou não dos sindicatos que decretaram a greve, recebem uma contribuição diária, por alguma entidade que faz a gestão do dinheiro recolhido mas que não são os sindicatos.

    dito isto, seria interessante ver quais seriam as reacções dos comentadores e analistas se existisse uma greve prolongada dos trabalhadores da CGD, financiada através de “crowdfunding”, ou dos magistrados do Ministério Público, ou dos juízes, só para ficarmos pelo sector público.

    deveria ser bonito.

  2. Está tudo exausto, tudo cansado com trabalhos mal remunerados, muitas horas de trabalho, trabalhos perigosos e dessocializadores.. Trabalhos alienante, talvez até mortificadores, só não estão esgotados os trabalhadores sem lobby, as minorias profissionais e uns tantos quais que da reivindicação e da pressão não podem fazer não podem deitar à mão pois nem ouvidos são…

  3. Sou orgulhosamente enfermeira, mas esgotada precisamente por isso… Só posso agradecer as suas palavras que me dão conforto.

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