Casas sim, barracas não

Vivo numa zona linda da linha do Estoril. Pedem agora aqui 790 euros por um T1 e, ao lado, num bairro estilo social, a 1 km, 580 por um T1 num r/c sem luz. As casas em que vivemos valem mais do dobro do que há 5 anos e todos os dias nos batem à porta a perguntar se queremos vender, a qualquer preço, preços obscenos, astronómicos, de capitais que voam do estrangeiro.
 
Quero fazer uma pequena previsão, e reiterar outra. As barracas vão voltar a Portugal, a menos que a população trabalhadora empobrecida emigre ou se anule a lei das rendas Cristas. 67% dos trabalhadores do nosso país por conta de outrem ganham menos de 900 euros por mês, 700 mil o ordenado mínimo. A classe média, agora proletarizada, está a migrar para as periferias e para os bairros sociais ou periféricos, onde paga não menos que um salário mínimo por uma habitação sem qualidade. Isso significa que os sectores mais pauperizados vão ter que ir viver em barracas. A esta expropriação massiva de trabalhadores por investidores chama-se “o país a sair da crise”. Para quem percebe de economia a ironia é de uma enorme crueldade. Quem vive do trabalho está enfiado na crise, e cada vez mais fundo – ou mais longe de tudo. Do centro, do trabalho, de uma vida digna. Se eu abro o correio à espera de cartas de amor, a eles espera-lhes uma carta de despejo, ou o eufemismo “rescisão de contrato”. Dizem-me que na periferia do Seixal já pedem 700 euros, e no centro do Seixal 1200 por um T3. Não admira que o PS decida tornar os passes sociais subsidiados outra vez. Em vez de resolver o problema de fundo paga-se para que os trabalhadores venham 2 horas em transportes para trabalhar. De outra forma, a passes a 120 euros, nem viriam.
 
Foi tornado público este mês um aumento da mortalidade infantil – as causas ainda se desconhecem. Também não se sabe se é um valor consistente. Porém, em 2013 publicámos um estudo colectivo sobre a segurança social (A Segurança Social é Sustentável, Bertrand, 2013) onde prevíamos a queda da esperança média de vida – porque a que existe hoje, e tem aumentado, depende das condições de saúde, alimentação e habitação que se criaram há 40 anos. As condições degradadas de hoje só vão ter resultados em uma década, ou talvez menos. Temo, mas não é ainda certo, que o aumento da mortalidade infantil seja consistente, em, tendência. E que seja nos sectores mais pobres, por isso sugiro que se comece já a inserir os determinantes sociais da saúde nessa análise, ou seja, esse aumento foi nos filhos dos ricos ou nos filhos dos trabalhadores? Enfim, como dizíamos há 6 anos a pergunta não é se a segurança social é sustentável, a pergunta é se pode haver uma sociedade sustentável sem segurança e Estado social.
Se me enganar em ambas as previsões assumirei o erro.

2 thoughts on “Casas sim, barracas não

  1. Como é possível quase não haver ”ruído” sobre estas matérias neste páis tão pequenino, onde é dificil esconder a degradação da vida quotidiana à nossa volta?

  2. O preço da vida. É ilegítimo e imoral alguém trabalhar para se manter vivo. O padrão de modernidade esconde a silenciosa luta pelos recursos que está a acontecer. As pessoas estão a ser expropriadas, vivem e trabalham para algo que as ultrapassa, já nem conseguem mimetizar a vida que acham que vale a pena viver. A imensa brutalidade de tudo isto não aflige, e não aflige porque é normal, tão normal quanto existir sozinho.

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