Salvámos os banqueiros, perdemos os bancos.

Se houvesse uma auditoria a todos os banqueiros que salvámos – com o argumento demagógico de que estávamos a salvar o sistema bancário salvando os banqueiros (na realidade estávamos a destruir os bancos salvando banqueiros) – nenhum português com o mínimo de sentido de justiça social aceitaria um desempregado, um salário baixo, um precário, uma consulta adiada, uma escola sem qualidade. Mas não houve. Nunca é demais recordar que não salvámos o sistema bancário, pelo contrário, ele faliu, e hoje a banca portuguesa não existe – é uma sucursal do Santander. O que salvámos – perdendo milhares de empregos e arrasando o país nos direitos laborais – foram investidores privados. Sim, pelo que foi tornado público esta semana, e é o grande escândalo do ano, o médico que saiu do SNS por ganhar muito mal, o professor exausto, estão a pagar piscinas privadas e campos de golf. Já sabíamos, ver com os olhos doí mais, porém. Se tivéssemos nacionalizado a banca sob controlo público tínhamos perdido, é verdade. Mas muito menos do que perdemos salvando estes homens, homens que durante anos serviram-se do Estado, o mais vil ataque à dignidade dos dinheiros públicos que este país viveu. Porque um qualquer país não vive sem bancos, mas vive sem banqueiros, recordo. Sim, e bem. Sem banqueiros, apenas com administradores controlados publicamente.
 
A «dívida pública» – escrevemos e demonstrámos há 6 anos em Quem Paga o Estado Social – era e é privada. Agora está aí, tornada pública, a factura parcelar do esquema, todo privado. O povo português é credor do Estado. Mesmo assim continuamos a pagar dos nossos impostos a trafulhice sem limites, de que só conhecemos a pontinha do iceberg, mas que arrasou com as famílias, que perderam casas, viram os filhos sair do país, ou ir trabalhar por um salário que não lhes dá para viverem, terem independência, serem felizes.
 
Não acabou. Pelo contrário. O Estado, sob a capa da dívida “pública”, continua a ser o sorvedoiro fiscal destas aldrabices, agora à escala de quase 8 mil milhões por ano em juros e mais 5 mil milhões neste orçamento – só este ano são assim 13 mil milhões directos para estes banqueiros e patos bravos. É verdade que há muitos assuntos importantes, e outros faitdivers e futebol e…Mas nada, nada, é tão importante na vida dos portugueses como esta coisa chamada “dívida pública”. É aqui que tudo começa. É aqui que o país ruma ao precipício.

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