A burguesia portuguesa é burra

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Acabo de estar com uma amiga. Ligou-me porque voluntariamente viu um erro num trabalho em que colaboro e queria ajudar a equipa antes da impressão. Fomos juntas beber um café e ela entregou-me uma correcção com um detalhe de artesã. Conhecemos-nos há mais de 20 anos. Lutámos juntas contra as propinas. Ela tornou-se numa brilhante psicóloga do cérebro, doutorada e especializada, esteve em Londres em hospitais de topo. Voltou. Acaba de receber a noticia de que o seu contrato precário no sector público, num hospital de referência onde está há anos – com um contrato com uma IPSS, um esquema comum em Portugal – não vai ser renovado depois do Verão. O défice está de boa saúde, explica Centeno. Na mesma semana ela e o marido, que há 20 anos trabalham sem parar e têm dois filhos, receberam ordem de saída da casa arrendada porque a proprietária a quer vender por mais de 250 mil euros. Vivem a 20 km de Lisboa. Os filhos estão na escola bem, e na escola de música, em ensino integrado, porque ela chega a casa à noite e cuida deles com voz suave e atenção total. São duas crianças maravilhosas. O pai deles cozinha, joga à bola, dá banho nos putos, é meu amigo também, um super pai. Ela é forte, ele também, mas vivem um terramoto. A certeza dos lucros, das rendas fixas e dos défices baixos é o tsunami da flexibilidade da vida das pessoas, que nem sabem onde podem morar, como vão dar um vida aos filhos decente. Tenho vergonha de viver num país assim.
 
E tenho vergonha todos os dias porque ser figura pública deu-me um privilégio único – todos os dias as pessoas me abordam a contar as suas vidas, o medo, o assédio moral, a desmotivação, o desemprego, a imigração. Talvez não haja hoje um dia em que alguém, desconhecido, não me aborde na rua. E me conte a sua história, ora desesperada, ora triste.
 
Acabei de assinar com mais 500 colegas investigadores uma carta a exigir emprego à FCT, muitos deles estão desempregados, vitimas de contratos a 5 anos – são todos doutorados. Outros estão subempregados – ganham menos e fazem menos do que sabem e podiam.
 
Mas o país de Centeno é uma plataforma giratória de capitais, portagens e pagamentos de passagem (nos portos, aeroportos, ferrovias e juros e mais juros, fixos, certos, estáveis, como jamais são as vidas destas pessoas). E junto a isso turismo, especulação e baixos salários. Recentemente bebi um chá com a esposa de um dos heróis do 25 de Abril. Ela é mais nova do que ele. É bióloga, esteve em três laboratórios, fala desse tempo com brilho nos olhos, qualificada, saiu ao fim de anos e anos de bolsas, com mais de 50 anos foi trabalhar na gastronomia. E hoje vou poupar-vos ao inferno do que é a vida dos operários, que são ainda 18% da população em Portugal. A burguesia portuguesa é burra, ignorante, dependente, o seu projecto é ficar sentada à espera que o dinheiro caia do céu, dos direitos de «passagem» das mercadorias para a Europa. Nunca teve um projecto próprio, a não ser o da barbárie colonial. Vendeu depois da Troika dedos e anéis e braços, dobra as costas a capitais alemães, tem orgulho em não produzir nada e desempregar quadros; e rasteja quando os empresários chineses visitam esta Florida da Europa. Morremos de frio, não temos comboios, damos aeroportos e ainda dizemos «foi de graça», é tudo, é bom dizê-lo, patético. Morremos de tristeza num país assim, onde cada vez se trabalha mais, por menos, e pior. E com mais medo.
 
Centeno, caro, tenho vergonha. Todos os dias tenho vergonha. E agarro-me à certeza de que um dia estas pessoas todas, tristes, chorosas, tão sérias e capazes, perderão a paciência de ver educados ministros destruir-lhes a vida e explicar-lhes como estamos «no bom caminho»; ou – os mais sofisticados e liberais – dizer que «somos pobres» e a «culpa é da Europa». Quero ser abordada por pessoas a sorrir, alegres, como na revolução, sorriam sempre nesses dias, os únicos em que fomos gente – foi quando o medo, finalmente, mudou de lado. Cabe hoje às organizações dos trabalhadores portugueses deixarem de pensar no seu sector, deixarem de ser pequeninos, e terem uma proposta de país. Porque se não vier deles não virá do Estado esse projecto. O do Estado é claro e tem séculos – é o da dependência e destruição, a que chamam «bom caminho e inovação».
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8 thoughts on “A burguesia portuguesa é burra

  1. Do alto dos meus 76 anos já vi este filme e a resposta para o seu artigo!!!é o tuga no seu melhor no país mais lindo do mundo!!!mas que é habitado por uma raça unica!!!

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  2. Nem a Multiópticas foi capaz com as suas lentes progressivas de pôr esta ”gente” a vêr melhor.
    Estou convencido, quase certo, de que o problema é mental realmente e um burro talvez se safasse melhor neste Zoo em que vivemos.

  3. Raquel Varela a burguesia portuguesa ” burra” era a que sempre teve mais meios de sobrevivência e vivia bem. Apesar da Troika ainda vive bem como sabe. Para as colónias (barbárie colonial ) e se estamos a falar no pós-guerra emigraram portugueses pobres tal como emigraram para França e para o Luxemburgo. Simplesmente, nos anos cinquenta, viver nas colónias ( depois províncias) era mais difícil que viver em França ou num país da Europa. Tinham a vantagem que havia mais espaço e estava tudo por fazer e era uma terra muito rica em subsolo. Mas havia mais doenças, algumas desconhecidas e de natureza infeçiosa, que matavam rapidamente, menos capacidade de ser tratado porque a estrutura de assistência foi sendo montada mas faltava quase tudo, a educação básica era um problema e o Estado Novo não se preocupava muito com a vida dos Portugueses . Quem lá vivia é que tinha que fazer por melhorar as condições de vida. Depois nas relações entre raças havia de tudo. É um assunto que tenho estado a estudar para lhe falar . Até breve. Ana Aleixo

  4. Concordo plenamente.
    Não só é difícil fazer vida neste país, mas ainda nos atiram à cara que “está melhor” e “há mais emprego” … pois há! Há muito trabalho em carga horária, é instável, precário e muito mal pago.
    Ironicamente, os muitos formados são obrigados a sair do país. O país investiu pelo menos 21 anos na sua formação para depois não obter dela nenhum fruto…
    O próprio Estado não dá as melhores condições para o seu povo prosperar. Pois mesmo que as pessoas queiram fazer algo por si mesmas não conseguem.
    O papel do Estado é dar asa à iniciativa das pessoas, e, simultâneamente não deixar que se “comam” e “canibalizem” umas às outras. Se o Estado canibaliza o seu povo, então faz parte do problema.

  5. Apenas uma sugestão, desde o Brasil. Repita a cada pessoa que lhe apareça com uma história triste que Portugal necessita urgente de um novo 25 de Abril e que ao invés de reclamar aquela pessoa precisa assumir o lugar dela na organização da nova Revolução. Faça isso de forma consistente e publique as respostas que obtiver em seu blog. Talvez, depois de muitas reclamações e respostas publicadas, as pessoas parem de reclamar! No mínimo, será uma interessante experiência sociológica…

  6. Pingback: Tomem nota: podemos muito bem mandar bugiar a “democracia europeísta” | Escólios

  7. Em Portugal até os doutorados são burros. A começar por estes 2. São doutorados, trabalhadores e esforçados e precisam de andar a pedinchar ao papá Estado que lhes arranje um emprego? Pertencendo esta gente ao grupo dos nossos melhores era suposto terem engenho suficiente para se “virarem”. Se estes não se safam sozinhos imaginem as pessoas com pouca instrução…
    Parece que nas faculdades a lavagem ao cerebro lhes inculca que quando acabarem os estudos devem esperar que o Estado assistencialista lhes garanta o bem estar só porque “andaram a queimar as pestanas”.
    A formação académica não é um fim, mas um meio.
    É no que dá a educação estar nas maõs do Estado. Em vez de formarem pessoas autosuficientes e produtivas, mais não faz que meter nas pobres cabecinhas dos estudantes as ideias socialistas, que não os deixa procurarem a sua felicidade…

    Joana Beliz

  8. Gostei da simplicidade do seu artigo, obra de quem anda de olhos abertos e conhece a realidade do país. Pegando nos exemplos que deu poder-lhe-ia entregar muitos outros, que todos os dias, sem exagero, me batem à porta.
    Há muitos anos que a vida da classe média em Portugal vem decrescendo de qualidade, encontrando-se, hoje, quase no patamar da sobrevivência. Não será por acaso, pois é a classe onde se encontram as pessoas melhor formadas a nível académico e com mais competências de trabalho.É uma classe que pela sua formação tem poder crítico, que há que limitar, retirando-lhe capacidade económica, diminuindo-a na sua força em
    agir, de ser livre…
    E o que dizer das classes mais desfavorecidas, o momento é terrorista para todos eles, encostados a uma vida de miséria, que nunca lhes permitirá ter qualquer acção ou evolução como pessoas, jogados para o gueto dos subsídios e outras medidas de efeito equivalente, para não morrerem de fome ou de frio.
    Neste país florescem os grupos organizados, mafiosos cuja arma é a finança, os dealers de tudo e mais alguma coisa, e os seus “pupets” os políticos. Quem anda pela capital, sem qualquer tipo de bairrismo, tem a sensação de viver num país abastado, em franco desenvolvimento. Essa sensação já não existe em qualquer outro lado, ao invés, nota-se a preocupação, a luta pela sobrevivência do negócio, do posto de trabalho, de um mínimo de de dignidade.
    Como sabemos, este problema não é só nosso, espalha-se do mesmo modo pela União Europeia, em especial pelos países periféricos, sejam do sul ou do norte.O centro da Europa, onde se encontram as instituições europeias são um sorvedouro inimaginável de recursos vitais para o desenvolvimento dos povos, vampirizados pelos referidos grupos mafiosos e os seus homens de palha.
    O sinal mais alarmante é que em todo este território não existe uma instituição que mereça a confiança das pessoas, tudo é manejado por uma meia dúzia, que tem extorquido o suor e o bem estar dos povos, que limita todos os dias o Estado de Direito, ao ponto de se poder colocar em causa a sua existência. A democracia, no desenho partidário que hoje tem, não faz qualquer sentido, e legitima os seus “operadores” a oprimirem e aterrorizarem os povos.
    Penso que ninguém tem dúvidas que esta situação vai ter um fim, uma vez mais à custa dos povos, do seu sangue e da sua luta milenar por uma vida com um mínimo de bem estar, de evolução pessoal e de gosto pela vida.

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