O Helicóptero do Hospital da Luz, os Spin e a falta de informação pública séria

A sucessão de notícias sobre o colapso do SNS não é inócua, há um spin de alarmismo que visa ampliar o mercado do sector privado, que cresce como cogumelos em dias húmidos e terras férteis. Ontem mesmo noticiava-se que uma parte dos hospitais públicos não pode receber helicópteros de noite. Quantos hospitais privados podem receber helicópteros de noite? Ou de dia? Talvez nenhum, ou menos de 10% destes.

Ao contrário dos apoiantes da Geringonça eu acho que só a verdade nos deve mover – o PS ajudou a destruir o SNS com as políticas que defende. O SNS está muito mal, sobretudo porque está descapitalizado dos seus melhores profissionais, que não respeita – nem com salários decentes, nem com gestão democrática. Trata-os como meros executores de decisões de gestores, sem vinculo frequente com a realidade médica ou empenho no serviço publico. Por isso há burnout, doença, sofrimento ético. E sem o fim dos Hospitais SA, e sem exclusividade e bons salários, e sem gestão democrática, não vai haver SNS. Mas, ao contrário da direita eu conheço bem o SNS, e sobretudo defendo-o como parte essencial da vida civilizada – uma parte dos privados não têm nem vai ter helicópteros e o seu serviço será cada vez pior, porque a qualidade dos salários dos profissionais do privado só se vai manter enquanto houver público a regular – a seguir à destruição do SNS vão ser proletários do Grupo Luz.

Como parte das cirurgias da greve dos enfermeiros nem sequer podem ser realizadas pelo privado que as recusa, pela sua complexidade. Como médicos a aldrabar no privado – tal como foi alegadamente o caso do médico do INEM – os há, talvez. Mas a aldrabar na gestão do público-privado não há «talvez» – há certeza. Como provou o Tribunal de Contas em vários casos. E não conhecemos as contas reais do sector privado porque aí não há Tribunal de Contas – porque esses privados, embora vivam de transferências da ADSE- estão sob «segredo comercial». São um negócio.

O Spin virou uma forma de (des) informar os portugueses. Um agência de comunicação coloca a rodar (spin) uma meia mentira, ou meia verdade, roda insistentemente para que se torne numa verdade incontestável. Com redacções sem poder, e muitas vezes sem saber de qualidade e crítico, é fácil chegar a capa de jornal ou abertura de telejornal. O povo, com menos meios ainda, repete tudo também. Às tantas estamos todos em conjunto a opinar sobre uma realidade que não conhecemos. E hoje em dia toda a gente sem conhecer acha que pode dar uma opinião, do aluno semi analfabeto ao político eleito, «existo, logo opino». Mesmo que não saiba nada do assunto. Longe vão os tempos em que as pessoas, formadas ou não, tinham cautela e diziam «não sei o que se passa, há que ouvir mais».

A notícia que aguardamos da parte dos media é quantos doentes são recusados pelo privado todos os dias, qual é o tempo de espera aí, o erro médico aí, a taxa de doentes readmitidos pela mesmo doença, quantos seguros não cobriram as despesas todas e mandaram os doentes ser salvos pelo público (ou morreram entretanto, porque não puderem ser salvos pelo tempo em que andaram a lutar com seguros), quantos médicos e enfermeiros trabalham no privado porque todos nós, e eles, pagámos com dinheiro público sua formação. Aguardamos estas noticias em letras gordas, na capa, a abrir telejornais. Assim em vez de Spins de agências de comunicação teremos notícias informativas.

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