Rosa e a Revolução Alemã

Passaram ontem 100 anos do assassinato de Rosa Luxemburgo. Mulher contra o feminismo, Polaca contra a independência da Polónia, judia contra o identitarismo religioso, Rosa foi uma das mais humanas e libertárias lideranças da história do socialismo. Por isso, talvez nenhuma mulher tenha contribuído tanto para a libertação da mulher como ela – pelo lugar dirigente que ocupa na história da emancipação da humanidade, na emancipação de mulheres e homens. Rosa definia-se por um identidade – ser revolucionária. Os seus inimigos – e alguns muito próximos, da ala social democrata – reconheceram a sua grandeza…mandando-a assassinar, decapitando uma das cabeças da revolução alemã – em 1933 pagaram o preço mais alto, com a ascensão do nazismo.
 
A revolução soviética e as suas repercussões nas revoluções socialistas europeias (alemã, húngara e mais tarde espanhola), a grande depressão que se inicia em 1929; a contrarrevolução e a ascensão do fascismo; a revolução espanhola e a guerra civil; as políticas malogradas de frente popular na França (1936-1939) e o New Deal e a economia de guerra, já nas vésperas da II Guerra Mundial… A história acelera-se. A transformação, o binómio crise e revolução, parece surgir em cada esquina.
 
Na Alemanha um levantamento revolucionário espontâneo, quando se torna clara a derrota militar em 1918, depara-se com a ausência de um forte partido revolucionário, como o Bolchevique. E com um movimento socialista espartilhado e dividido depois da Guerra. Lenine e Trotsky acreditavam que a sorte da revolução russa dependia muito da revolução alemã, porque só aí havia potencial económico para evitar a pobreza, e não havia socialismo sem abundância. Orientaram toda a Internacional Comunista nesse sentido, considerando que era mais fácil tomar o poder na Rússia atrasada do que construir aí, pela escassez de meios, o socialismo. Mas que, sendo mais difícil tomar o poder na Alemanha, seria mais fácil conservá-lo aí, porque a abundância do desenvolvimento económico permitia uma melhor distribuição de riqueza, ao contrário da Rússia onde o atraso condenava o país, se isolado, à miséria.
 
Mas a Alemanha tinha uma social-democracia fortemente dependente do Estado, que tinha-se na sua maioria subordinado ao nacionalismo. E o nacionalismo era pujante[1]. Nem a derrota militar o destruiu. Embora abalasse. Chega-se em dois momentos – 1918/19 e 1923 – a formar-se sovietes e conselhos, proclama-se a República Soviética da Baviera (1919). Em Novembro de 1918 os marinheiros de Kiel, no mar Báltico, pegam em armas com uma acção revolucionária que se estende a várias unidades militares, sobretudo Marinha, mas também a fábricas[2].
 
Os socialistas não têm maioria na Assembleia Constituinte e o Governo usará da repressão sobre os sovietes, apelando ao nacionalismo, inter-classista, que defendia uma posição unificada da burguesia, da aristocracia em decadência, da hierarquia do exército e do movimento operário alemão para negociar no Tratado de Versalhes. O Tratado, continuação do armistício de Novembro de 1918, levou 6 meses a negociar e impunha uma derrota à Alemanha com perda de territórios e pagamento de altas indemnizações. Foi ratificado pela Liga das Nações (1919-1945), a precursora da Organização das Nações Unidas.
 
Os freikorps, grupos paramilitares proto-nazis, grupos de extermínio dos opositores, de desmobilizados de guerra, vão ser usados para assassinar Rosa Luxemburgo e Karl Liebnecht, líderes revolucionários da revolução alemã, numa atitude cúmplice do ministro da defesa social-democrata Noske com estas milícias. São também usados para arrasar a sovietização da Baviera[3].
 
A última carta de Rosa Luxemburgo antes de ser assassinada é a Clara Zedkin, a líder feminista social-democrata alemã, revolucionária, que muitos conhecem porque propôs a fundação da celebração do dia internacional da mulher, ainda hoje festejado a 8 de Março. Rosa era amiga íntima de Clara, e foi amante do filho dela. A sua última carta não é sobre esta relação inesperada, que Rosa registou no passado e que não colocou em causa a amizade entre as duas, mas sobre a revolução em Berlim. A carta demonstra o entusiasmo de Rosa com as movimentações populares e operárias e também a sua inquietação, de alguma forma a ambiguidade que caracteriza todo o seu percurso face ao centralismo democrático e à concepção de partido leninista.
 
Depois de confessar quase não dormir, mudar de casa constantemente, um «torvelinho»[4], Rosa traduz, sem esconder a força e o drama da espontaneidade das massas, a ausência de um Partido: «As graves crises políticas que vivenciamos aqui em Berlim a cada duas semanas, ou com frequência ainda maior, obstruem fortemente o andamento do trabalho sistemático da educação e organização, mas ao mesmo tempo são uma extraordinária escola para as massas. E, enfim, temos de aceitar a história como ela quer acontecer. (…) Neste momento continuam as batalhas em Berlim, muitos dos nossos bravos jovens caíram: Meyer, Ledebour e (como temíamos) Leo (Jogiches) foram presos.
 
Por hoje tenho de encerrar. Mil abraços. Sua R»[5].
 
A carta é de 11 de Janeiro. A 15 é assassinada, e decapitada. O seu corpo, separado pela cabeça, atirada ao rio. A revolução alemã tinha sido decapitada da sua maior dirigente, e o mundo perdia a mulher que deixou uma obra impar. Uma mulher que nunca foi feminista mas dirigente dos socialistas, como um todo; que, sendo judia, se recusou pertencer a um grupo de judeus que queriam formar um sector próprio no Partido; que nasceu na Polónia e não apoiou a independência da Polónia, em nome do internacionalismo. A sua obra, um sopro de humanismo e liberdade.
 
Raquel Varela, Este artigo é parte do livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018)
 
[1] William Pelz, História do Povo da Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 222.
 
[2] Pierre Broué, The German Revolution, Chicago, Haymarket Books, 2006.
 
[3] William Pelz, História do Povo da Europa Moderna, Lisboa, Objectiva, 2016, p. 221.
 
[4] Isabel Loureiro (org), Rosa Luxemburgo, Cartas, Volume III, São Paulo, Editora Unesp, 2011, p. 359.
 
[5] Isabel Loureiro (org), Rosa Luxemburgo, Cartas, Volume III, São Paulo, Editora Unesp, 2011, p. 361.

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