“Otelo amigo, o povo está contigo!”

Salazar está morto, Otelo vivo. Pim!

Um obscuro grupo convoca uma manifestação de apoio a Salazar e Manuel Luís Goucha não desiste, e chama um neo-fascista brasileiro para ganhar dinheiro a vender anúncios de televisão. Eu manifesto-me também – estou aqui a cantarolar “Otelo amigo, o povo está contigo!” e desisto de perdoar à TVI os erros – afinal não são erros. É estrutural. A ERC acha também que a liberdade é abstracta – não discute política, não toma posição.

O honesto ministro das finanças Salazar estava no poder quando começou, sob sua ordem, uma guerra colonial que sorveu em média, durante 13 anos, 33% do Orçamento, chegando aos 40% em alguns anos. Em Lisboa durante esses anos as crianças ainda morriam de cólera e infecções provocadas por mordidas de ratos, porque 90 mil só na grande Lisboa viviam em Barracas. Para a guerra Salazar e depois Caetano mandaram 90% da população masculina, enquanto ficaram no seu gabinete a assinar medidas “honestas de contenção da despesa pública”. Destes jovens, mais de 8 mil morreram. Feridos ou incapacitados ao longo de 13 anos, só do lado de Portugal, foram 100 mil. Mortos do lado das colónias calcula-se 100 mil (sem contar feridos). Com deficiências físicas do lado de Portugal 20 mil. Salazar era um facínora, historicamente falando. Otelo Saraiva de Carvalho – o comandante operacional do 25 de Abril – um herói, da história e das nossas vidas. Não gosto de história de grandes ou pequenos homens, nem Salazar estava sozinho, nem Otelo, nem ninguém, mas se tivermos que fazer aqueles exercícios de escolha, estilo «o homem mais importante do Portugal do século XX», Otelo venceria.

Distingo terrorismo (terror sobre civis) de luta armada (ataque a alvos dirigentes). Embora nunca tenha apoiado a luta armada, muito menos o terrorismo. Recordo que terrorismo em Portugal, matar civis e espalhar terror, foi sobretudo uma táctica da direita em 1975, no Verão Quente. Sim, a violência na revolução foi essencialmente de direita. Mas enfim, o que queria dizer é que a prisão de Otelo já nos anos 80 foi política. O obscuro e mediático processo das FP 25 teve uma única razão – fustigar o líder do 25 de Abril popular, e ao prendê-lo defender o 25 de Novembro e o seu filho que emergia, o TINA – Não Há Alternativa ao Neoliberalismo. Havia que afastar Otelo da luta política dos anos 80, ele era o único que podia, pelo apoio popular que tinha e o qual realmente apoiava, opor-se ao TINA. Otelo, no auge da crise dos anos 80, era o único potencial líder contra a destruição do movimento operário combativo com sede na Lisnave, era o único político que incorporava o espírito de Abril com base popular. A resistência da Lisnave foi ténue por parte do PCP, já muito inserido no aparelho de Estado, e mesmo não resistente este PCP quando depois de 86-87 aceitaram paulatinamente a concertação social. A UGT já tinha entregue então dedos e anéis. Politicamente era essencial ter um Otelo preso e não um Otelo que de novo eclipsasse, ou pelo menos ameaçasse seriamente, o PCP, como na eleição dos GDUPs. A região de Setúbal era única que podia resistir à reestruturação produtiva. Mas não chegavam operários fortes, por mais fortes que fossem eram apenas um movimento sindical. Era preciso liderança politica, politização desse movimento sindical em disputa de Estado, eleitoral mas não só. Não sei se ele – que conheço tão bem, e de quem sou muito amiga – tem agora noção desse papel que jogou, sem saber que queria jogar. Já lho disse, e ele ficou a pensar. Como está de óptima saúde temos muito tempo para pensar juntos, pois é um homem excepcionalmente afável e que pensa criticamente o seu papel, com uma abertura rara.

Independente desta complexa história, que sei que foge ao campo do entendimento geral, há algo que todos – especialistas ou não -, temos que compreender. Quem não percebe o que é o feito, a grandeza, de pôr fim à guerra colonial e à ditadura, que é a maior tragédia, e crime, que sobre este país se abateu, não percebe nada da história do seu país. Otelo merece uma estátua gigante. Porque, quer gostem quer não gostem ele incorporou como ninguém a “missão da liberdade”. Somos livres porque fizemos uma revolução, mas ele foi o homem que deu o pontapé de partida. Não podíamos ter emergido da noite sem a brilhante estratégia e coragem de Otelo, que naturalmente na minha óptica da história social incorpora toda a revolução – mesmo a parte que não gosta de nela ser incorporada. E, vejam que paradoxo, até os seus detractores. Até os pobres coitados que convocam uma manifestação de apoio a Salazar vão à rua agradecer a Otelo, porque até 24 de Abril nem manifestações se podiam convocar.

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