Salazar e os seus mortos

Salazar e os seus mortos
 
Muitos ficaram chocados com o valor de 100 mil mortos do lado colonial em 13 anos. Eu ando há 20 anos impressionada também a investigar e a assistir aos mitos que se criam, só se referem os mortos do lado do exército português, por um lado, por outro difundiu-se o mito da revolução dos cravos sem mortos, esquecendo 13 anos de mortos nas colónias e que são parte da revolução de 1974 que começou com uma revolução no seu território, em 1961, as revoluções anticoloniais. E o que dizer de um país falido, que não teve dinheiro para investir em nada até entrar capital estrangeiro na década de 60 e mesmo assim fala-se de um honesto ministro das finanças, Salazar.
 
Respondendo à questão dos mortos na guerra colonial: a historiografia militar norte-americana fez uma aproximação a partir de uma fórmula que cruza densidade populacional, tamanho do território, tipo de guerra, duração, tipo de armamento, e chegou à conclusão de talvez 100 mil mortos do lado dos movimentos de libertação e populações nos 13 anos de guerra. Do lado do exército português essa contabilidade é documental, e são perto de 9 mil. Encontram as referências bibliográficas no meu livro Revolução ou Transição: história e memória da revolução dos cravos (Bertrand), no meu artigo/capítulo História e Memória da Revolução dos Cravos. Sobre o papel de repressão de massas da PIDE com ligações ao exército e assassinatos indiscriminados, têm a tese da Dalila Cabrita Mateus, sobre a PIDE DGS e a guerra colonial (Terramar editora, se não me falha a memória) Antes da guerra existiram ainda as outras guerras coloniais, as «campanhas de pacificação», bárbaras, aconselho o documentário do Rosas na RTP sobre este tema. Salazar era um criminoso. Que os media durante estes anos tenham dado algum espaço à tese do homem honesto das finanças só prova a necessidade que temos de fazer história e divulgá-la e a responsabilidade de promover nos media a divulgação rigorosa do passado. Finalmente não esquecer que o termo guerra colonial é o conceito, real, mas do ponto de vista do Estado português; do ponto de vista dos povos sujeitos ao trabalho forçado (que foram a base de apoio à guerrilha) bem como dos que aqui em Portugal os apoiavam o termo sempre foi o, também real e correcto, termo revoluções anticoloniais.

https://www.bertrandeditora.pt/produtos/ficha/revolucao-ou-transicao/12653035

 

1 thought on “Salazar e os seus mortos

  1. Desculpe esta correcção de um lapso do seu texto, mas parece-me importante.

    Ao falar do “Estado Novo”, referíamo-lo outrora, pelos anos 1970s e 1980s, como o regime de “Salazar e Caetano”. Este seu texto, tal como o anterior que publicou há dias, parecem-me muito oportunos e com rigor histórico excepto neste pequeno ponto em que se esqueceu do papel de Marcelo Caetano. De facto, este chefiou praticamente metade da “guerra colonial”, durante quase seis anos dos 13 que ela durou. Ora, Marcelo Caetano não se limitou a “gerir” a herança de Salazar.

    Eu diria que ainda hoje vivemos sob a propaganda, a que assisti desde 1968, ano em que Caetano se tornou chefe da ditadura, orientada para o branqueamento desta figura do “Estado Novo”, a meu ver (opinião subjectiva, não sou historiador!), tão sinistra quanto os outros dignitários do regime. De facto, desde princípio que foi posta a circular (certamente não pela esquerda) a ideia de que, com Caetano, “as coisas iam mudar”. Em certa altura, em parte devido às “Conversas em família”, chamaram-lhe “O Salazar que ri”. Desta campanha de propaganda resultou, em alguns sectores da população, alguma simpatia, se bem que entre as pessoas mais politizadas não tivessem eco as mudanças cosméticas como a PIDE passar a DGS e a censura a “exame prévio”. Por tudo isto e por tudo o mais que não cabe num comentário, considero que este branqueamento de Marcelo Caetano precisa de ser historicamente desmascarado e não alimentado ao deixar que a figura e a sinistra governação de Marcelo se apaguem no esquecimento.

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