Entrevista Rádio Alfa em França

Entrevista Rádio Alfa em França

“Escrevi a História do Povo na Revolução Portuguesa, agora editada em França, em oposição à tese de Boaventura Sousa Santos sobre o Estado e a sua relação com os movimentos sociais. Cada um de nós, ambos cientistas sociais e no espectro de esquerda, temos uma tese antagónica sobre Estado e direitos.

Sousa Santos, talvez o teórico com mais influência, embora de presença pública discreta em Portugal, no Bloco de Esquerda, renovadores e mesmo esquerda do PS, defendeu para a revolução dos cravos a tese do Estado Dual. Segundo ele – em 1974 e 1975 – o poder do Estado esteve em disputa entre os trabalhadores e as elites. E os trabalhadores conseguiram, sem tomar o poder do Estado, dividi-lo, e alcançar mais direitos.

No meu livro História do Povo demonstrei que tal tese é falsa. Porque o que os trabalhadores conseguiram em termos de direitos não foi por dentro do Estado, mas contra o Estado: através das comissões de trabalhadores, moradores, órgãos de gestão de escolas e hospitais, etc. Não houve um Estado Dual mas uma Dualidade de Poderes.

A diferença essencial neste tese é teórica, mas não só. Eu, para defender a minha tese fiz uma investigação empírica de mais de 10 anos em centenas de casos concretos, dados, a mais longa cronologia de movimentos sociais publicada sobre 1974-1975, a única base de dados de evolução de greves e manifestações, tudo em mais de 8 arquivos nacionais e internacionais. Onde provei que a conquistas de direitos é, em cada escola, fábrica e hospital, imposta ao Estado, contra o Estado. E isto tem uma cronologia, factos, e uma metodologia que não é aleatória.

Boaventura, da área da sociologia pós moderna, não fez investigação empírica, e criou uma teoria – sofisticada, porque ele é um intelectual- sem factos ou investigação de arquivos ou casos concretos.

Para mim existe a comissão de trabalhadores que entrou dentro do autocarro em Carnaxide, liderada por uma operária têxtil, e impôs que o autocarro agora ia até ao bairro de barracas, com a conivência grevista dos motoristas. Para Boaventura só existe o final dessa história – a existência de uma nova carreira de autocarros, que passou a servir as populações pobres.

Tal tese reverbera hoje no BE, por exemplo, onde a conquista de direitos estaria dependente da força parlamentar do número de deputados e não da força social das ruas. Menos ainda dos locais de trabalho, onde o BE tem escassa representatividade. O apelo ao fim de greves ou protestos ou à «moderação» assume que o povo actua de forma caótica, e perigosa; e que os deputados regem o poder de forma racional e correcta. Não por acaso Boaventura é o filósofo da razão instrumental, contra a razão cítrica.

Podem ouvir a entrevista completa aqui.

1 thought on “Entrevista Rádio Alfa em França

  1. Uma chamada de atenção (ou um aviso) que lhe faço, Dr.ª Varela:

    O Prof. “BS”, como lhe chamo eu, foi co-fundador do “Fórum Social Mundial” (h*tps://en.wikipedia.org/wiki/Boaventura_de_Sousa_Santos) financiado pela Ford Foundation e pela Rockefeller Brothers Foundation (h*tps://www.lahaine.org/mundo.php/iquien-financia-el-foro-social).

    E, a não ser que haja quem, muito ingénuo/a, queira justificar este financiamento como um acto de insanidade por parte do Grande Capital, trata-se o mesmo obviamente da aplicação da fórmula de “oposição controlada” – em que, se promovem falsos adversários (à globalização capitalista, como era o caso deste Prof. “BS”, no início da década passada, no Diário de Notícias, enquanto eu e outros andávamos nas ditas manifestações “antiglobalização”) com vista a que as suas mais inócuas possível críticas suplantem as piores que podem ser feitas (exemplo de uma crítica real, sobre a globalização capitalista: h*tps://www.gregpalast.com/world-bank-secret-documents-consumes-argentinaalex-jones-interviews-reporter-greg-palast/).

    Ou seja, o Prof. “BS” tem todas as características típicas de um falso adversário do sistema vigente, promovido pela imprensa controlada por este mesmo sistema, para fazer o tipo de críticas que interessa a este mesmo sistema fazer.

    “A melhor maneira de controlarmos a oposição é sermos nós próprios a liderá-la.”
    — Vladimir Lenine

    (No fundo, tratar-se-á de uma tentativa de controlar as críticas e o debate, neste caso, no lado da suposta “Esquerda” – tal como é feito em muita da suposta imprensa esquerdista estadunidense: h*tps://fotos.web.sapo.io/i/o2614b2a0/17874116_t0nHC.gif)

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