Portugal vai ter coletes amarelos dia 21 de Dezembro?

Portugal vai ter coletes amarelos dia 21 de Dezembro? Ou como a esquerda não pode continuar a viver numa bolha fora da vida real das populações.

Há uma manifestação de coletes amarelos convocada para Portugal para dia 21 de Dezembro. Alguns jornais deram o alarme – e muitos foram atrás -, atenção é “uma manifestação convocada pela extrema-direita”.

Peço-vos que reflictam alguns minutos sobre o absurdo desta premissa. Em Portugal só há 4 entidades com capacidade de mobilização de manifestações de massa: o PCP/CGTP, a Igreja, os media/Estado e uma entidade chamada Povo. A extrema-direita não existe. Mesmo em França Le Pen abandonou os protestos porque à cabeça os manifestantes exigiam impostos sobre as fortunas, e ela é… uma das fortunas.

Portugal é um país fácil de compreender do ponto de vista dos movimentos sociais porque tem pouca população, fronteiras definidas há 8 séculos, pouca imigração (muita emigração), e manteve-se rural até aos anos 60. O único dado que baralha as previsões é a pequena propriedade generalizada. De resto isto é sociologicamente até um bocado aborrecido. Previsível. Quem fique a estudar Portugal sem um olhar mundial, que nos traga novos desafios, aborrece-se. O interesse deste país -, que nos apaixona -, não é a sua complexidade. Mas a sua simplicidade. É na alheira numa tasca ilegal, onde também come o GNR, que encontramos a parte divertida do país.

O PCP e a CGT e a Igreja têm cada vez menos capacidade de mobilizar massas nas ruas – ainda têm porém. O PCP/CGTP porque o pacto social acabou. A Igreja porque o mercado ganhou a Deus. Os media/Estado e o Povo cada vez mais influenciam e mobilizam.

Os media e o Estado porque se agigantaram no pós guerra. O Povo por uma questão numérica e de desigualdade social. O Povo, com as classes médias proletarizadas, é a maioria esmagadora.
Em Portugal porém desde o 25 de Abril que não há um movimento Popular – o tal “Povo”.

Em Portugal não há manifestações convocadas pela extrema-direita porque esta não existe. Se a esquerda não falasse dela tanto nem 50 militantes tinham. Fizemos a mais radical revolução do pós-guerra e isso teve efeitos muito para além da Ponte ter passado a chamar-se 25 de Abril. Os que derrubaram a ditadura, contra o Estado, estão na sua maioria vivos. Será preciso uma geração mais para que este efeito acabe.

Se a manifestação de dia 21 existir de massas ela não pode ser de extrema-direita. Porque em Portugal a extrema-direita junta 50 pessoas. Se juntar parte dos amigos dos animais, sectores da segurança privada e ainda a Opus Dei somará no total 200 pessoas. Isto porque as senhoras da Opus Dei são mais, mas nem às barricadas de rio Maior foram sujar os sapatos, quanto tinham a propriedade ameaçada. Quanto mais irem em auxilio de trabalhadores pobres de cidades semi-abandonadas pelo Estado, que é o que estes coletes amarelos são. Aliás enquanto a esquerda de Lisboa se entretem a chamar nomes à extrema-direita um povo do Algarve vestiu coletes amarelos contra as portagens – por acaso militantes de esquerda…É que o país não é o Bairro Alto.

Se houver manifestação dia 21, se existir e for grande (não sei, nem posso adivinhar), ela vai ser chamada pelo Povo (por isso não posso adivinhar o número de pessoas). O que significa que a sua direcção, caminhos, propostas, etc irão no sentido de quem estiver lá a dirigir. Isto é, quem souber escutar os problemas reais das populações, ouvir as propostas de resolução com eles, e não “por eles”. E dar-lhes um sentido construtivo, em vez de destrutivo, uma direcção de bem comum e não de salve-se quem puder.

Assim, se as populações estão contra os impostos ao consumo como o da gasolina deve-se propor a baixa destes, que é urgente e penaliza os mais pobres, em troca de impostos sobre a grande propriedade e renacionalização de sectores como a energia e investimento em linha férrea que auxilie as populações das cidades médias. Se estão contra os baixos salários a solução não é expulsar migrantes (nem aceitar concorrência com salários mais baixos) mas ter políticas de pleno emprego. Este é um exemplo, podia dar outros tantos.

As manifestação de Timor Leste (TSF), Geração à Rasca e 15 de Setembro partiram de uma ideia relativamente desorganizada e popular nas redes sociais mas o seu eixo de mobilização de massas não foi o Povo, foram os media/e o Estado. Todas elas tiveram como ponto de mobilização principal os media (que dias antes abriam telejornais a avisar das manifs) porque os interesses do Estado, na luta fraccional entre PS e PSD, assim o convocavam. Estive em todas elas mas nunca criei expectativas de que tinham sido movimentos das classes subalternas – e quem o fez errou, apaixonado pela ideia de ver muita gente na rua.

No caso de Timor para fazer passar o petróleo para a égide da Austrália; no caso da Geração à Rasca para uma fracção de poder fazer cair então o Governo, e caiu, e apressar a entrada da Troika; e no caso do 15 M para uma fracção do poder fazer cair a TSU. Não foram movimentos de baixo – ao contrário do que se passa em França com os coletes amarelos. Mas foram movimentos com os de baixo – por isso apoiei-os. Mas é bom não inventar massas a dirigir, quando massas estão a ser dirigidas.

Respondendo à minha pergunta, Portugal vai ter coletes amarelos dia 21? Não sei. Se fosse o PCP/CGTP, a Igreja e os media/Estado eu diria quantos iriam estar nas ruas. Não sei se vai ser um flash daqueles que não sai das redes sociais – e isso também depende da evolução do que se vai passar em França – ou se vai a população abrir caminho a uma situação francesa. Não tenho como prever.

Sei que politicamente as pessoas de esquerda, democráticas ou simplesmente civilizadas não devem estar contra uma manifestação justa pela diminuição de impostos, taxas e taxinhas que aniquilam a decência da vida, cada vez pagamos mais por piores serviços – isso não é de direita, é pura civilização e democracia contestar isto. Estar ao lado dos manifestantes, se eles existirem, ouvindo com ouvidos sinceros os seus anseios, debatendo soluções reais, e assim evitar que eles sejam dirigidos pela direita, é o que era necessário – já vão tarde meus queridos amigos de esquerda.

A extrema-direita em Portugal não dirige nada, rien, nicles, nestum. É um papão que o PS e a esquerda, e até o PSD, sopram aos ouvidos de quem ousa sonhar fora do Tratado de Maastricht. A única coisa que mantém hoje os regimes europeus intactos é a ameaça da extema-direita, ninguém apoia estes regimes, mas todos estão contra o outro que supostamente virá.

Volto sempre à ideia de Raymond Williams, o nosso papel, como intelectuais, ou dirigentes políticos, sindicais, associativos, não é tornar o desespero convincente mas a esperança possível. Neste caso não é gritar “fujam que vem aí a direita”, mas encontrar soluções reais para os problemas que realmente destroem a qualidade de vida das populações, e assim, e só assim, evitamos que venha aí a extrema-direita. O que virá aí só é pior do que o que temos se 1) não mudarmos e continuarmos a tolerar a desigualdade e o retrocesso imposto pelos neoliberais – de direita e de esquerda 2) se deixarmos esse espaço de descontentamento vazio, dando lugar assim à extrema-direita.

1 thought on “Portugal vai ter coletes amarelos dia 21 de Dezembro?

  1. E mais uma vez que vivam as greves, os protestos, fora com o Estado, os ricos, foram com as invenções da extrema-direita que na Europa tem ocupado lugares de destaque em alguns países e poderá ser a terceira força no Parlamento Europeu. A extrema direita não existe aqui, mas a manifestação também foi convocada por um página chamada direita política de onde surgem as fake news contra a esquerda. Por favor Profª Raquel vamos ser realistas e menos demagógicos: Não queremos anarquia.

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