Alguém terá visto por aí a Ministra da Saúde?

Alguém terá visto por aí a Ministra da Saúde?

Qualquer protesto desenquadrado do controlo tradicional é logo rotulado por um grupo de “especialistas” em movimentos sociais como corporativo, de direita, até de extrema direita, irresponsável. Confundem tudo, a base com a direcção, propostas com métodos, Estado com partidos, um molho de bróculos sem validade sociológica alguma.

Ontem, até a líder do BE veio criticar a forma das greves (mais cedo do que previ, ai ai Bloco…)- lá chegaremos, aquele momento em que grevistas sejam tratados de “aventureiros” e “agentes da CIA”, como fazia o PC em 1975 a tudo o que fugia ao seu controlo férreo. Aprendi há muitos anos que nunca devemos ceder a simplismos, muitos gostam de respostas simples – é nesse momento que devemos oferecer-lhes uma resposta ainda mais complexa. Pode ser em estónio, ou basco, as duas línguas mais difíceis da Europa.

A Bastonária disse que há mortes com a greve? Não. Disse algo (ainda) mais sério. É preciso aumentar a cabeça e ver para além do dia de hoje.

Ela disse, e se lerem a notícia e não só a gorda, vão ver, porque está lá, que há muitas mortes com falta de enfermeiros, e não só dos enfermeiros que adoecem mais cedo, mas dos doentes. E mais, que há muitos blocos operatórios – antes da greve – parados por falta de cirurgiões, e anestesistas. Há muito tempo.

Sim, convido os media a irem a São José e a pedirem ao administrador o número de cirurgias adiadas por falta de anestesistas nos últimos 5 anos. Há 3 anos coordenei para a Ordem dos Médicos um estudo sobre o número de médicos em Portugal – esse número estava detectado, e o Governo conhece-o, nunca ouvimos porém o Governo dizer-se culpado de mortes (o estudo é de consulta pública). Como ninguém pode garantir que não morreram muitas pessoas nas listas de espera. Ou na erosão do serviço nacional de saúde para o sector privado.

Que a rigor ela, Bastonária, não pode garantir (seria fácil ter mentido ou negado) que não podem morrer pessoas. Mas que estão os serviços mínimos a ser assegurados, mais até do que os serviços mínimos, tudo o que são operações consideradas urgentes pelos médicos estão a ser realizadas. Digo-vos mais, no estudo, público, pedido então pelo médico Jaime Teixeira Mendes, Ordem dos Médicos do Centro/Sul afirmámos – está escrito – que a continuar assim, não vamos ter cirurgiões porque para formar cirurgiões é necessário não só internos – o que há – mas cirurgiões experientes no sector público, o que há cada vez menos. Não abrem vagas para a especialidade não só mas também porque não há especialistas para os formar. E cirurgia não se aprende em livros, sem um número x de actos não se pode aprender a ser cirurgião. O Governo enfia os estudos na gaveta, dá os parabéns pelo “trabalho”, os media dão uma notícia alarmante, “há falta de médicos”, chegada a greve bombardeiam-nos, invertendo a causalidade dos factos. Pergunto, isto ajuda a resolver um problema tão grave quando a greve em curso?

Estive em Coimbra na Escola de Saúde a apresentar esse estudo há 3 anos, o director da Escola de Enfermagem disse
– publicamente, perante uma plateia de mais de 200 pessoas e comunicação social – que 90% dos enfermeiros formados ali, com impostos públicos, iam para Inglaterra, levados por uma empresa de recrutamento, mesmo antes do curso terminar. May agradece, já que os neoliberais deram cabo do ensino lá, e vêm cá buscá-los sem custos. Os que cá ficaram, poucos, estão obrigados a sobreturnos. Estes sobreturnos estão a levar a um aumento conhecido de gravidez de risco, em mulheres muito jovens, sim, nas enfermeiras, e da taxa de absentismo, e, adivinho eu, do erro e acidente laboral. Há também o caso – conhecido do Governo – dos idosos que não são mudados nas camas porque há 2 enfermeiros para 80 doentes. E ficam com escaras e feridas. Mas há também, a Ministra conhece, o caso dos que morrem sozinhos nas macas nos corredores.

O Governo teve como táctica contra este greve não resolver a vida tremenda destes profissionais mas esconder a Ministra da Saúde e fazer aparecer a Bastonária da OE. Já vi 1254 noticias sobre a Bastonária, cujo Partido não apoio. Não apoio, porque qualquer solução em Portugal no campo da saúde passará por salários altos na saúde conjugados com exclusividade no setor publico e fim dos hospitais SA. Tudo o que o PS e o PSD não querem. A solução para a nossa vida terá que integralmente passar pelo SNS, de público para público. Mas, de tanto ver notícias sobre a Bastonária ainda não vi uma única notícia – uma só – de propostas do Governo para melhorar a vida dos enfermeiros, e por fim à greve. Aliás, já me perguntei onde anda a Ministra da Saúde, vocês não?

3 thoughts on “Alguém terá visto por aí a Ministra da Saúde?

  1. Prof Raquel,

    tenhamos calma estamos fartes de greves apenas para “sacar” mais dinheiro aos contribuintes e para estatuto de comparação aos médicos. Tirassem o curso de medicina e não de enfermagem. Mais dinheiro querem também 10 milhões de portugueses. Tenhamos calma com essas história das greves que já fartam.

  2. “Não têm pão? Comam brioche!”

    Que tristeza haver tantos sabichões que não entendem que, para comer pão (ou brioche), se tenha que imigrar, porque na pátria não se respeita a dignidade humana e a “meritocracia” quase sempre invocada para limitar os salários de quem trabalha.

    A minha admiração, Raquel Varela, para ter a paciência de deixar a asneira ser livre nos comentários ao seu blog.

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