A Ministra do Mar ainda não se demitiu?

Depois disto a pergunta é, a Ministra do Mar ainda não se demitiu?

Estive na verdade a descansar e por isso só agora li a documentação sobre as falhadas negociações de Setúbal. É fácil de explicar, num minuto, depois de ler tudo – vamos ter um conflito de dimensões nacionais e internacionais gigantesco.

Os patrões exigiram ao Sindicato dos Estivadores uma inconstitucionalidade flagrante, e a Ministra deu uma conferência de imprensa dizendo que era incompreensível o sindicato não a aceitar. Os patrões exigiram ao Sindicato que suspenda as greves às horas extraordinárias nos outros portos como condição para assinar o acordo de Setúbal. Ora, são duas greves distintas, com pré avisos distintos, e por razões distintas – em Setubal contra a precariedade, em todo o país às horas extraordinárias contra a perseguição e assédio moral.

A Ministra exige a um sindicato parar uma greve em Leixões contra o assédio para assinar um acordo em Setúbal contra a precariedade. É ilegal abdicar do direito à greve, é na verdade inconstitucional.

Politicamente é um carro sem travões, já que aquilo que a Ministra – e Costa que nela mantém a confiança politica – deu caução foi o seguinte: a Auto Europa e Setúbal não são um problema, porque podem ficar parados desde que sejam usados como arma de arremesso para pressionar Leixões. Não compreendo sequer como esta Ministra ainda não se demitiu.

A dimensão internacional era expectável. Houve já uma paragem de 2 horas na Alemanha no porto da VW contra o navio carregado por fura greves, foi um sinal de que em breve teremos um conflito à escala europeia.

Estou convencida e conto sustentá-lo num livro que espero terminar no início do ano que vem com a História dos Estivadores que para Costa não há um problema com Setúbal, o objectivo é derrotar este sindicato para que ele não sirva de bitola a um sindicalismo em crise, no qual o PS tem historicamente grande influência, marcado pela burocratização, ausência de democracia interna, ao serviço das eleições e não dos associados. Desde 2008 que a UGT é um cadáver em termos de representação, muito menos de 5% do total dos trabalhadores do país, e mesmo a CGTP está numa crise profunda. Setúbal é a moeda de troca a pagar para este Governo para que milhões de trabalhadores não se inspirem no Sindicato dos Estivadores. É um jogada alta, se for. Porque como se vê em França a melhor forma de prevenir a violência é com organização que luta por direitos a sério. Já que com sindicatos amarelos ou sem sindicatos, os trabalhadores revoltam-se em desespero porque há limites à degradação da vida.

O que evitou que estes trabalhadores de Setúbal fossem para o desespero até agora foi este sindicato, a quem a Ministra entreteve 20 horas numa reunião que afinal nunca teve outro objectivo que não fosse culpabilizá-los, junto da opinião pública, do eventual falhanço do que à partida estava desenhado para falhar. Os nossos coletes cor de laranjas e amarelos de Setúbal estão há quase um mês em greve, organizada, em plenário, debatendo, e dando a cara sem medo para todas as televisões, arriscando a sobrevivência para terem uma vida digna, ajudando-se mutuamente para sobreviver. A Ministra do Mar está do outro lado – a incendiar o país.

É também por isto, por esta demonstração de civismo, que me junto à campanha de recolha de fundos de Solidariedade para com os estivadores à jorna de Setúbal. Na página do SEAL encontram a conta para quem queira e possa contribuir para a sua subsistência, há um mês sem salário.https://www.facebook.com/setc.pt/ Por um momento vimos no país nem desistência, nem caos – mas organização estratégica e solidária. Isso merece todo o nosso respeito.

1 thought on “A Ministra do Mar ainda não se demitiu?

  1. Deixar as pessoas à sorte da sua força é o derradeiro abandono, foi isso que o governo fez, não importa a constituição, não importa a razão ou a razoabilidade da luta, nada importa quando o que está em causa é a manutenção de um sistema que não conta com todos e que existe para deleite de alguns. Portugal não pode ser um sitio onde o inferno é merecido, «Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.»

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