A sociedade anónima

De um lado centenas de trabalhadores pobres, ali em Setúbal, a dar a cara. Querem que eles estejam sós, sem um contrato colectivo de trabalho. Sós, sem um sindicato que os defenda.
Do outro uma empresa cujos donos nunca conhecemos ou vimos, detida por um punhado de indivíduos, e que se apresenta como uma “sociedade”. As empresas chamam “indivíduos” a quem só trabalha e sobrevive em cooperação, como toda a espécie humana. E que sem salário não pode ser indivíduo nem ter qualquer liberdade. Mas chamam-se a si próprias “sociedades”, embora só conheçam o contrário da sociedade – a lei da selva, a liberdade de esmagar todos os que se atravessam no caminho. As empresas querem a máxima segurança para si, enquanto apregoam para quem trabalha que aguente a máxima insegurança. São solidários entre si os patrões, criaram mesmo associações de “sociedades”, mas querem para os outros a competição do contrato individual e temem a solidariedade entre sindicatos. Querem saber a cara dos grevistas para os perseguir. Mas nunca dão a cara, nem publicam as contas.
 
«A sociedade anónima – cujas origens remontam ao século XVII. Não por acaso é nome por excelência da sociedade comercial contemporânea. Mas o nome não é a coisa. Anónimos, os mercados têm um bilhete de identidade de propriedade, uma conta bancária. Valor supremo – a propriedade – das sociedades capitalistas pós revolução francesa, direito sempre limitado porém (não há direito de propriedade ilimitado), ele mantém-se como o direito mais importante dos sistemas jurídicos ocidentais, superior à vida, na medida em que o direito a ver os capitais remunerados se sobrepõe, em vários momentos do século XX, ao direito ao emprego . Foi o acesso à propriedade – terras, comunicações, alimentos, fábricas, maquinaria, matérias-primas – que esteve no centro dos mais importantes conflitos europeus, desde sempre. Homens mediados por títulos de ações que ocultam a sua relação social, que não aparece como uma relação de disputa do que é produzido de essencial (e de excedentário, que permite ampliar o acumulado, o “investimento”), mas como uma relação mediada por abstractos títulos, em longínquas bolsas de valores, desde a idade moderna. »
 
In Raquel Varela, Breve História da Europa, Bertrand.

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