Toino Caranguejo

Morreu o Toino Caranguejo. O Toino era uma das personalidades da vila mágica da Zambujeira Do Mar. Diz-se que o nome veio do caranguejo que transportava dentro da boina do Che Guevara que usava, enfeitada com uma estrela de 5 pontas do internacionalismo operário. Coisa que, desconfio, ele jamais soube.

Nas minhas primeiras memórias de ir para lá (os meus avós já iam), o Estado ainda era ausente, não havia restaurantes legais, e o campismo era selvagem. Estávamos nos anos pós 25 de Abril. Lugar acarinhado pelo Parque Natural e as falésias, a Zambujeira era uma vila perdida de pescadores. Este atraso face à modernidade permitia a existência de uma série de personalidades não padronizadas. Quase todas dariam um romance de realismo mágico. Uma delas era o Toino.

Filho da mais pobre família da terra, nem a pobreza conheceu pobres assim muitas vezes, o Toino tornou-se alcoólico cedo na vida. Quando eu era pequena ainda ia à pesca, e às vezes fazer uns biscates no nosso monte, nome que se dá à casa no Alentejo, para o meu pai. Por isso desde cedo o Toino me chamava, como o meu pai, Raquelinha. O Toino tornou-se cedo a nossa brincadeira preferida, depois os turistas descobriram-no – nem o galo de Barcelos cantava assim. Quando a crise na Etiópia levou ao “We Are The World” o Toino repetia a música a plenos pulmões, voz grossa e assustadora, subindo a ladeira do café Fresco ao café do Rita. Nós, miúdos em bando, seguíamos o Toino e pedíamos, “Toino, toca a cassete!”. A nossa brincadeira preferida, porém, foi inventada pelo mais reguila de nós, o Nuno Flores, que descobriu que o Caranguejo, orgulhoso de beber vinho, ficava indignado quando nós, de mansinho, chegávamos perto dele e dizíamos, “Toino, cheira aqui a leite”. Ele rugia, erguia os braços para o alto, a voz ganhava força desde o abdomen, que saltitava por baixo da camisola sempre suja, e gritava “Vejam lá, se não cheira mas é a sangue!”. E fingia que vinha atrás de nós, nós fugíamos a rir com aquele nervoso na barriga. E ele parava…e ria-se. Contente, a olhar para nós.

Mais tarde descobri eu mesma uma brincadeira, que hoje creio saber porque a repeti tanto. Eu chegava perto dele de surpresa e dizia “Toino!”. Ele virava-se para trás, com a voz potente e assustadora “Quem és tu?”. Quando via que era eu, aquele ar raivoso desfazia-se, e sobressaia um olhar de uma criança de 5 anos. Ria e dizia, em voz 3 oitavas a baixo, “Ah, Raquelinha! és tu”. Sorria-me e perguntava, sempre a mesma pergunta, por mais de 30 anos a repetiu: “Atão, o teu pai? Foi à pesca?”. Como se ao virar-se e ver-me descobrisse um afecto, um descanso na loucura, como diz o Guimarães Rosa. Por isso eu adorava aquele encontro – a sua mutação de animal irado a homem doce. Mais tarde passei no Centro de Dia e fui visitá-lo, sóbrio e mais triste. E lembrei-me de todas as questões que os mais críticos psiquiatras colocam, até onde podemos curar as pessoas? Mas isso daria outra conversa, que não cabe aqui. Hoje queria mesmo era dizer-vos, sem nenhum elogio da pobreza – que é um mal a curar no mundo -, que havia no Toino Caranguejo um cheiro de humanidade.

3 thoughts on “Toino Caranguejo

  1. Tinha eu uns 16 anos quando descobri a Zambujeira.
    Sem parque de campismo, acampava nas dunas perto da Casa do Capitão… e os dentes lavados na Fonte dos Amores. O café do Rita era o mais próximo da civilização. Tinha uma cabine minuscula com telefone publico e era o posto “avançado” dos CTT.

    Aí conheci o Antonio Caranguejo.. tal e qual a Raquel o descreve. Na minha memoria ainda o vejo com calças de tecido camuflado e um cinturão militar carregado de bolsas com sei lá o quê dentro.
    Essa voz, tanto mais audivel quanto o vinho que tinha emborcado, lá ia anunciando a sua passagem.
    Presenciei algumas exceções de sobriedade do Antonio, e essas tinham aquela eloquencia de quem não estudou mas sabia sobreviver à vida.
    Nasceu uma amizade de fim de semana. Eu saía de Lisboa de Vespa à 6ª feira, fazia 5 horas de estrada e chegava a Zambujeira pelas 10 da noite. No dia seguinte, lá andava o Antonio à procura da Vespa. Eu era o seu alvo de sempre. Com um sorriso matreiro e umas quantas palavras de circunstancia e tal, lá me pedia “um pintor”… 100 escudos. E eu, enganado por uns tempos, acreditava que o “pintor” não seria todo gasto em vinho de pacote.
    Os anos foram passando. Da Vespa para um sidecar Jawa e deste para uma Moto Guzzi… e o Antonio sempre atento, sabia onde eu parava. Com o tempo, o “pintor” passou a “meio litro”…500 escudos. Era o seu pedido em código: ” Arranja-me aí meio litro”

    Um dia a Guzzi estacionou e ficou ali em frente ao muro da falesia… e nada de Antonio. Nem nesse dia, nem no seguinte. E já não perguntei por ele. Sabia que ele não ia aparecer para sempre.
    E queria muito que o Antonio me pedisse no seu código, o que quer que tivesse inventado para 10 Euros.
    Ainda lá estava a casa minuscula onde ele e, salvo erro, mais 7 irmãos, tinham sido criados.
    Todos eles abandonaram a Zambujeira nas suas vidas. Mas o Antonio nunca o fez. Era sua a Zambujeira.
    Saudades.

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