Porque os Juízes se suicidam mais? E os estivadores se revoltam? Portugal, retrato da depressão laboral.

 

Dejours esteve recentemente em Portugal. Não foi fácil trazê-lo, chovem convites de todo o mundo. Escrevi-lhe, ele agradeceu muito, palavras elogiosas, mas… não podia; eu insisti, explicando a hipótese que eu e o Coimbra de Matos desenvolvemos juntos, ele na clínica, eu nos estudos das greves, sobre revolta e relação nos locais de trabalho. Ele disse que viria. No seu fato de corte britânico, e delicadeza aristocrática, o fundador do Laboratório de Psicopatologia do Trabalho em França – que provou a relação entre os suicídios da France Telecom e a gestão do trabalho da empresa – disse a uma audiência de centenas de professores em Lisboa: “Têm que reagir e resistir às condições de trabalho…e não se deixarem apanhar”.
 
Este brilhante académico, depois de uma exposição dilacerante sobre as condições de trabalho e a doença mental dos trabalhadores e o suicídio, apelou – em público -, à conspiração. Organizem-se, conspirem e revoltem-se – e não se deixem apanhar. Tal e qual. Deixarei aqui a gravação.
 
Há poucos dias um estivador que teve uma doença gravíssima disse-me, “agora com a greve sinto-me com mais energia”. Um dos meus grandes amigos é juiz, homem de uma inteligência e empenho social únicos, passamos horas a conversar, o seu semblante muda quando me conta dos processos a metro que o pressionam, da padronização de decisões que têm que ser únicas, o medo de que as metas de produtividade o levem a decisões injustas. Tudo em nome do “tempo”. São os 15 minutos do médico para ver o paciente.
 
Um dos mais recentes projectos de Dejours é o estudo do galopante aumento de suicídios em três categorias em França – juízes, médicos e dirigentes sindicais. Se há sector que é impossível simplificar é o da mente humana, mas terei que o fazer aqui. Dejours defende que os juízes se suicidam mais, e os médicos também, por causa do “sofrimento ético” – a vida perde sentido porque aquilo que é central em nós, nos dá reconhecimento societal, o trabalho, não o podemos realizar bem. Os métodos de gestão actuais, importados de fábricas dos anos 30 para tribunais e hospitais do século XXI, tornam impossível realizar o trabalho com decência. E as pessoas vão-se desvinculando emocionalmente do trabalho, entrando mesmo em sofrimento, que pode levar ao suicídio.
 
O interesse de Dejours pelo trabalho que Coimbra e eu desenvolvemos reside aqui. No seu contrário, aliás. Dejours estuda suicídios, eu estudo resistentes, porque todo o meu trabalho é focado num tipo especifico de trabalhador, o dirigente que luta. Os suicídios dos dirigentes sindicais são, na minha opinião, mais prováveis entre os que não lutam (ou fingem que lutam, mentindo a si próprios), essa é a hipótese que lhe transmiti. Coimbra há muito tinha desenvolvido a noção de Relação de Qualidade, Penso em ti, existo, uma visão ampla da forma como construímos todas as relações, não só laborais. Coimbra juntou a isto algo ainda mais, e essencial – noção de projecto, de futuro, estratégia e objectivos de vida. Não podemos viver no passado, e sem projectos de transformação de futuro.
 
Quando fui ter com o Coimbra de Matos, que começou a nossa parceria, fui com uma pergunta. Para a qual não tinha resposta, porque claro não sou psiquiatra ou psicanalista. Há anos que todos os dias entrevisto e estudo trabalhadores tristes, desmoralizados, cabisbaixos, deprimentes. Mas estudo mais os outros, os resistentes. Eu própria ando alegre quando estudo a revolução e tenho que tomar uma alheira de Mirandela e um vinho bio quando saio de uma linha de montagem onde assisti aos olhos baços, tristes, sem vida dos operários hoje, dos médicos que entrevisto, dos enfermeiros, dos professores, tristes, tristes, tristes. Mas o meu trabalho é efectivamente sobretudo focado nos dirigentes radicais e revoluções. Que são em média mais alegres, fortes, bem humorados. Também são ansiosos, nervosos. Mas jamais deprimidos. São os que lutam. Aliás, a minha pergunta já vinha de longe – Portugal era muito mais pobre em 1975 e muito mais feliz. A pobreza é uma tristeza mas a luta contra a pobreza é que altera o comportamento – não é um estado, é uma reacção em movimento.
 
Havia um padrão mental e eu fui ter junto do Coimbra, levei um texto de Rosa Luxemburgo sobre revolta enquanto antídoto para a depressão (texto pouco conhecido de Rosa sobre os desempregados) e disse-lhe, “há aqui um padrão nos que eu estudo ou estou a inventar?”. O Coimbra acha que há um padrão. Tinha ele próprio, na sua clinica de mais de 6 décadas desenvolvido a mesma hipótese, até com o mesmo nome de Rosa, “revolta”. Rosa falava em Revolta e Organização, Coimbra em Revolta e Relação. A revolução, é famosa esta frase de Coimbra, é o que nos impede de cair na violência. É preciso negar o que nos faz sofrer, diz ele, mas negá-lo em relação, ou seja, junto dos outros, a luta, em suma, tem que ser a dois, a três e a muitos. Nos casais é preciso fazer o luto de quem nos deixou, revoltar-se, mas construir uma nova relação; só existimos com bem estar enquanto em relação não saturada com o outro/a, os outros.
 
Nas lutas sociais a relação colectiva não narcisista é o antídoto para a depressão e a desmoralização. Por isso o estivador tinha “energia”. Porque quando é alvo de assédio e se cala há uma implosão, uma destruição da auto-estima, dominam hormonas de medo, de desgaste emocional, não temos dúvidas hoje, nem Dejours, Coimbra, eu e toda a equipa do burn out que se há 1/5 dos portugueses com doença mental a causa primeira está nas relações laborais sociais. E na falta de reacção a elas, na greve – democrática e combativa – há uma humanização em que a cooperação, a força, a decisão coletiva elevam a força das hormonas de bem estar e prazer. Podem ler esta tese num ensaio que escrevemos juntos Do Medo à Esperança (Bertrand).
 
Disse “greve combativa” porque em Portugal há greves por decreto – e greves não se decretam. Organizam-se colectivamente, as de decreto servem para desmoralizar ainda mais. Daí a hipótese que deixei nas mãos de Dejours, greves de marcar o ponto, de submissão a calendários eleitorais, de plenários formais não evitam a depressão porque podemos mentir a nós próprios por pouco tempo. O nosso poderoso inconsciente diz-nos se realmente estamos a reagir com eficácia e em cooperação, ou se estamos a afundar-nos, mesmo quando mentimos dizendo a nós próprios que estamos a lutar e na verdade não estamos.
 
Os juízes estão em greve porque a lei de Costa para eles e a função pública quer impedir a progressão na carreira. Mas eu acredito que está a ter tanto sucesso porque mistura reivindicações justas salariais mas também “Revolta” contra o “Sofrimento Ético”. Desafio aliás o Ministério a colocar cá fora a taxa de doenças mentais dos juízes e de suicídios, porque esse desafio me foi feito esta semana por uma juíza. Quem tem medo da estatística?
 
No caso dos estivadores, entre os portugueses um dos sectores que mais horas trabalha, a greve é um antídoto para a destruição da auto-estima porque ela não tem como objectivo o calendário eleitoral ineficaz, nem foi aprovada num plenário formal. Ela tem um projecto de relação – democracia real – e futuro – mudança real. Ela é uma verdadeira acção coletiva, uma, diria o Coimbra, “relação de qualidade – penso em ti”.
 
No fundo, no fundo, um velho inglês, Raymond Williams, pioneiro dos estudos culturais antes dos estudos culturais terem entrado em depressão pós-moderna, já tinha lembrado tudo isto numa frase magnifica. Esta frase que já conhecia tão bem via-a escrita na porta em letras garrafais quando exausta cheguei ao fim de 40 horas de voos ao Sindicato Marítimo da Austrália “A nossa função não é tornar o desespero convincente, mas a esperança possível”.
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