Macrón é melhor no marketing do que na história.

Vejamos, o que ele não se lembrou de lembrar:
 
O Armistício da Guerra foi a revolução russa, a revolução alemã e os levantamentos dos exércitos beligerantes imperiais que seguiram estas revoluções. A guerra foi provocada pelas burguesias imperiais nacionais, quem terminou com ela foi o Partido Bolchevique, em primeiro lugar. A estalinização depois de 1928 não autoriza a apagar-se o que significou a revolução russa na Rússia, na Europa e no Mundo entre 1917 e 1927.
 
1) Uma Guerra imperialista. O século XIX começa com uma crise do colonialismo – dos velhos impérios – e terminará com a «vitória do imperialismo colonial, que leva a uma divisão do mundo entre as potências europeias – a que se juntam, mais tarde, os Estado Unidos e o Japão -, ao agravamento das tensões internacionais e, finalmente, à Primeira Guerra Mundial». Em 1914 a Inglaterra tinha um império 114 vezes o seu tamanho; a Bélgica 80 vezes, a Holanda, 60 e a França, 20. E Portugal mais de 20 vezes o seu tamanho.
 
2) A guerra não foi assim tão popular. Os socialistas franceses chegaram a colocar a hipótese de uma greve geral contra uma guerra europeia, em Julho de 1914 ; na Alemanha os grevistas das fábricas eram enviados para a frente de guerra como castigo; fontes históricas demonstram que a classe trabalhadora da poderosa região do Ruhr – ainda hoje a região mais forte e sindicalizada da classe trabalhadora industrial europeia – ficou de fora das manifestações patrióticas . Do outro lado do Atlântico, nos EUA, o governo apela ao recrutamento voluntário de 1 milhão de soldados – mas nas primeiras seis semanas depois da declaração de guerra só 70 mil se alistam .
 
3) Contra a guerra estiveram poucos: os bolcheviques e os socialistas sérvios. E muitos heróis individuais. Jean Jaurès, líder socialista da França, opositor à guerra, foi assassinado por um nacionalista francês a 31 de Julho de 1914.
 
4) Mas, se a guerra acelera a barbárie, impulsiona a resistência. Quase todas as revoluções no século XX (mas não todas) tiveram na sua origem, directa ou indirectamente, a guerra – porque ela mobiliza toda a sociedade e eleva ao máximo as tensões de classes.E assim, se a II Internacional tinha cedido às pressões nacionalistas e militaristas, a mesma guerra criou, sob a égide da Rússia bolchevique, uma direcção, uma esperança, com uma força mundial que não existia até então na história. Os países estavam dilacerados, mas o movimento operário tinha-se fortalecido, entre outras razões, já o referimos, porque milhões de camponeses na frente (onde por vezes morriam, pela forma de recrutamento por aldeia, regimentos inteiros!) transformaram-se de pequenos agricultores isolados numa força colectiva – o exército.
 
5) Na luta contra a guerra das guerras ergue-se a revolução das revoluções. A equação “nação é igual a Estado e Estado é igual a Povo”, que para o historiador Eric Hobsbwam foi o centro da constituição do nacionalismo burguês depois da revolução francesa , vai ruir aqui. A guerra agora não seria mais entre nações, mas entre o operariado, unido internacionalmente, contra as burguesias das suas nações. Contra a guerra imperialista, a luta de classes. Na Rússia estava em marcha um «armistício estabelecido de facto na frente» .
 
6) No Natal de 1914 as tropas francesas e alemães confraternizam nas trincheiras, e são penalizadas. Mas é só em Abril de 1917 que se dá o primeiro «Adeus às Armas» de massas da I Guerra Mundial – 68 divisões, nada mais nada menos do que metade do exército francês, recusam-se a voltar à frente: morte, agonia, piolhos, tuberculose, os trabalhadores, camponeses (agora soldados), estavam a enterrar-se vivos na lama e no sangue das trincheiras. A resposta do Estado foi esmagadora: 500 sentenças de morte e 49 execuções. Algumas unidades ergueram-se com a bandeira vermelha a cantar a internacional. Queriam marchar sobre Paris, gritavam «Viva a Revolução», «Viva os Russos!». Cantaram a canção de Craonne: «É em Craonne sobre o planalto, que devemos deixar a nossa pele (…), mas acabou, pois os praças Vão todos fazer greve» . Perto de Bolonha, em Étaples, uma rebelião de 100 mil soldados ingleses dura 5 dias – os oficiais britânicos usaram da política do «pau e da cenoura»: fizeram concessões e executaram os líderes, para pôr fim à rebelião.
 
Depois do desastre militar de Caporetto, a 24 de Outubro de 1917, há uma «greve militar», soldados italianos amotinaram-se em massa. A Espanha era neutra mas vive uma greve geral de 15 a 18 de Agosto de 1917, na sequência, o dirigente histórico do PSOE, Francisco Largo Caballero, será condenado a prisão perpétua.
 
As notas correspondem a excertos do meu livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018)
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