Fui visitar a minha médica de família, e fui de comboio

Recentemente visitei a minha médica de família, atendeu-me às 8 da manhã, tratava-se de requisição de análises e alguns exames necessários e a consulta demorou 1 hora e 10 – leram bem. Porque o computador foi abaixo três vezes. Ela não se cansava de me pedir desculpas, como vem de um país asiático longínquo aproveitámos para conversar sobre história e cultura, o computador foi novamente abaixo, mudámos o tema para teatro, temos filhos no teatro, novamente abaixo – o “sistema não responde”, “erro no sistema”. E o centro de saúde não tem informáticos, apenas técnicos administrativos, que aliás sabem ainda menos de informática do que eu ou ela. Nem têm que saber, isso é uma especialidade técnica – no SNS ela, porém, não funciona, foi alvo de um ataque de cativações.

Mário Centeno tem uma personalidade cativante, é um neoliberal de esquerda que fez a sua carreira académica sobre o mundo do trabalho, conhecemos por isso bem o seu trabalho, o seu ápice cientifico, sofisticado devo dizer, foi propor uma contrato único europeu nivelado por baixo, uma espécie de vamos todos viver como na Grécia, da Suécia ao sul de Itália. Essa ideia brilhante para quem vive de carteiras de acções teve também peso para que fosse convidado a estar no Eurogrupo, uma para-instituição financeira não eleita que decide os destinos dos nossos impostos para um destino que ninguém conhece, uma vez que, pese embora a propaganda, os serviços públicos estão em colapso. Porém, ao contrário do seu antecessor holandês, o tal que nos chamou bêbados, Centeno vive de cativar-nos.

Quando apresentámos o nosso trabalho sobre o SNS para a Ordem dos Médicos propusemos a criação de um secretário de saúde, alguém com formação que estaria ao lado do médico a fazer todo o trabalho administrativo enquanto o médico exercia medicina. Isso iria aumentar a riqueza produzida ou seja, o número de doentes tratados (e bem tratados), com tempo. Diminuiria, como sabe Centeno,o lucro, que é pago em juros da dívida, cativado nas contratações de funcionários públicos. Tal proposta nem foi ouvida. Também está cativada. Porque há o “perigo sistémico” dos banqueiros ficarem nervosos se lhes cativarmos o que receberam do erário publico. O medo deles, que estão com o nosso dinheiro, é uma alegria constante que vivemos nos sorrisos de Centeno.

Cativado esteve também o passe social dos meus filhos, finalmente tiveram um desconto de 25% – pagam os 2 juntos…77 euros por mês, portanto 1/5 do salário mínimo, já que o que eu pago em impostos para transportes públicos está cativado para pagar as PPPs, este ano vão ser 1500 milhões de rendas fixas para esta malta cativante das autoestradas. Requeri o passe dia 11 de Setembro, chegou ontem dia 6 de Novembro, embrulhado em sinceras desculpas pelos trabalhadores da CP do meu bairro, que aliás passam o dia a pedir desculpas aos passageiros de coisas que não têm culpa: supressão de comboios, atrasos. Centeno passa as desculpas para quem está no atendimento na linha da frente, enquanto nos cativa no Jornal das 9. A oposição está cativada pelo cativante Centeno e pelos cálculos eleitorais de que indo contra o PS abrirão a porta ao PSD – ora o que abre as portas, a médio prazo, à direita, e à direita mais dura, é o caos social e sobretudo a ausência de partidos de esquerda com propostas justas e corajosas, é neste vazio que tanta gente perdida acaba a votar em pistoleiros e bárbaros.

Que nos sobre a nós o realismo de percebermos que não há simpatia onde não há justiça social. Pagar impostos neste país começa a ser um sacrifício moral. Quando eu era pequenina todos à minha volta, em geral gente progressista, acreditavam no pagamento de impostos porque eram progressivos e tínhamos bons serviços públicos, fui assim educada. A fuga fiscal era condenada. Hoje não conheço ninguém que pague impostos com agrado – e continuo a ter amigos progressistas. Os impostos em Portugal só são pagos porque o único serviço que funciona bem é as Finanças que têm prerrogativas aliás para-criminais, como suspender as contas, coisa de país sub-desenvolvido. Aí, nas Finanças, Centeno não poupa nem nos serviços informáticos nem nos funcionários. Tudo isto é engraçado, mas é sobretudo vergonhoso. Porque não há erro no sistema, é o sistema que está errado.

5 thoughts on “Fui visitar a minha médica de família, e fui de comboio

  1. Tema para meditar:
    “… é um neoliberal de esquerda”

    Haverá “neoliberais de esquerda”? Ou é uma contradição nos termos?

    Cumprimentos pelas suas crónicas e intervenções públicas, são estímulos intelectuais numa área que por cá andava seca há duas décadas, pelo menos.

  2. Concordo devido a experiência própria, dado ter dores crônicas . Desconfio que os médicos de família tem um ‘budget’ limitado quanto a tratamentos, e.g. fisioterapia comparticipada Portugal investe na imigração de as multinacionais investem tanto nos low-cost centers (CC e SSC = BPO), porque Portugal é um paraíso em relação às Filipinas ou India.

    Aqui trabalhamos no limite da pobreza para enriquecer o governo. Cada falha dos sistemas da Segurança Social nos deixa mais mais fragilizados, dando vazão a insegurança social, mantendo o trabalhador muitas vezes precário, sujeito a faltar tempo a mais num Centro de Saúde, sendo penalizado no salário pelas horas que lá passou.

  3. Usar os outros para o próprio contentamento…é disto que se trata quando falamos da variante “neoliberal” mais benigna. Sempre conscientes e sensatos, gente de bons sentimentos, pessoas com a incrível capacidade de andar “em cima do muro”. Na realidade são inimputáveis, melhores que muitos, não existe devastação quando não se olha para trás.

    A dialéctica da extrema direita é acertada, é a diferença entre “o que podem fazer por nós” e “o que vamos fazer contra eles”.

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