História e Democracia

Entrevista que dei sobre democracia, a nova extrema direita e história da Europa, e o «milagre» europeu que não se deve à exploração das colónias em primeiro lugar, mas à derrota política do mais organizado sector operário do mundo, os alemães, no nazismo.
Como evolui a democracia entre o século XX e o século XXI?
Raquel Varela: Muito bem em alguns momentos, como 1945-1970, em que por força do pacto social que decorreu da II guerra se associou democracia política com direitos sociais; muito mal noutros, como na década de 30 na Alemanha, Áustria, Portugal, Espanha. Penso que o desastre começa em 1928 na Rússia com a ascensão da ditadura comandada por Estaline. Estas derrotas sociais, juntas com a crise de 29, deram a vitória ao nazismo. Mas não há Europa sem Rússia, ainda hoje. Estranho que não vejamos que o território russo que conta está na Europa. No pós re-estruturarão produtiva dos anos 70 a contradição entre economia de mercado e direitos sociais voltou a vir ao de cima. Hoje as pessoas são livres para votar e não conseguem sequer ter em grande parte qualquer hipótese de independência económica para viver. Esse hiato vai agigantar conflitos sociais no futuro, a curto prazo.
Entre 1917 e 2017 a Europa foi o centro de um projeto de integração política, social e económica cada vez mais contestado. O que seria da Europa sem a CEE ou a UE?
RV: De facto só houve dois projectos europeus, o da Oposição de Esquerda liderada por Leon Trotsky nos anos 30 do século XX, esse projecto não saiu do papel pela derrota da revolução espanhola e a ascensão do nazismo; e o projecto europeu das classes dominantes dos anos 70, que veio a dar a União Europeia. Esse saiu do papel. Vingará por muito mais tempo? Tenho dúvida. Os sinais, como o Brexit, indicam que a competição entre empresas de Estados europeus vai sobrepor-se à solidariedade. Uma Europa dos povos unida – sem a qual não haverá paz – tem que ser construída pela mundo do trabalho manual e intelectual, não acredito que os Estados estejam à altura desse desafio histórico.
De entre os principais acontecimentos que marcaram a Europa entre 1917 e 2017, há algum que tenha marcado particularmente e de forma mais radical a dinâmica Europeia e os Europeus?
RV: Sim, a revolução russa, e a Segunda Guerra Mundial. Mudaram a posição “do eixo da terra” – a revolução russa ampliou como em mais nenhum momento os direitos sociais, até o direito ao voto se espalhou pela Europa não revolucionária depois de 1917 – devemos isso aos russos, que sempre tiveram menos democracia interna do que aquela que proporcionaram com a revolução em 1917 na Europa.
E a Segunda Guerra que é o corolário do medo da revolução social, de uma nova revolução russa, quer na Alemanha, quer na própria URSS. Mas é preciso estudar as crises económicas, faço isso em relação a 4 crises na Europa, 1929, 1970 e 1981, 2008 – todas estas crises mudaram a configuração da Europa e consequentemente do mundo sob sua influência, directa ou não. O Estado Social europeu é o que de mais avançado foi produzido desde sempre na história da humanidade e foi conseguido – essa é uma tese minha que levo a debate neste livro – pela derrota politica do movimento sindical alemão entre 1933-1945. A Europa tem as taxas de crescimento que tem (que permitiram o pacto social, subir lucros e subir salários, em suma) não só pela exploração das colónias, isso foi essencial mas secundário, mas porque recomeçou a produção capitalista em 1945 partindo do zero, com os métodos de gestão norte-americanos e uma classe trabalhadora desmoralizada, cujos principais dirigentes tínhamos sido mortos. Idem para o Japão, o milagre do boom económico.
Os resultados eleitorais nos últimos dois a três anos revelam o aumento de popularidade de partidos tidos como de extrema direita em alguns países europeus como a Hungria, Polónia, França, Áustria e Itália. Prevê esta tendência em Portugal?
RV: Não acredito que Portugal escape, embora vá ser mais tardio e menos radical porque houve o 25 de Abril. Creio que a ascensão da extrema direita está relacionada com o falhanço simultâneo do neoliberalismo e da esquerda social democrata. Hoje a meta narrativa de transformação radical da sociedade é um exclusivo da extrema direita, têm um programa estratégico. Desastroso e violento, mas estratégico. O neoliberalismo falhou totalmente em afirmar o seu propósito, o de que a flexibilidade laboral iria trazer crescimento e bem estar. Foi o contrário.
A social democracia abandonou um programa de defesa do pleno emprego e Estado social e trocou isso pela defesa do assistencialismo. A esquerda revolucionária é marginal e confusa, identitária e segregacionista, incapaz por agora de dialogar com a maioria do mundo do trabalho.
Sem vitórias esta onda não vai mudar. Mas as vitórias podem ser repentinas. Mas são necessárias. O que tivemos foram derrotas, a traição do Syrisa ao referendo, o catatonismo social democrata pela Europa que aceita os ditames neoliberais da Europa, a derrota sangrenta e medieval das primaveras árabes e o caos na Venezuela. Foram sucessivas derrotas no campo da esquerda, que se entrincheirou no identitarismo, lugar onde será esmagada pela extrema-direita se não conseguir ter um programa universal de governo e bem estar para todos.
Sendo professora universitária, que diferença espera encontrar nestes alunos do “Âmbito Cultural”?
RV: Dou muitas aulas em associações, ordens, sindicatos, bibliotecas. Em geral acho que quem vai a estas sessões fora da academia tem uma curiosidade muito grande, isso é muito gratificante. Escrevi este livro para o público em geral. Queria que hipóteses complexas pudessem ser lidas por todos. Explicar o complexo de forma simples, mas não simplificar a realidade.
Entrevista publicada em Magazine ElCorteInglês, sobre o meu livro Breve História da Europa (Bertrand, 2018). A propósito do curso que vou dar sobre o tema no ElCorte Inglês, inscrições no local acesso livre. Informações em
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