Da cabeça às mãos

Por causa da (ir)realidade política tenho escrito pouco sobre o que é importante, a vida. Vou guardando as histórias debaixo da urgência da sobrevivência do mundo. Aqui vai um cheirinho de vida.

Entro numa loja para arranjar os dois trompetes dos nossos filhos. Comprados há 10 anos, quando começaram a aprender numa Banda Filarmónica. Sentado, concentrado, com os olhos quase em cima de um clarinete e um pequeno instrumento na mão um artesão arranjava-o. Disse-lhe, feliz de o observar, «Bom dia! Com esse trabalho nunca entristece!». Ele levantou-se, surpreendido e veio ter comigo, «Como sabe, menina?». Deixo-o continuar, chama-se Francisco, não lhe disse o que sabia de reificação, alienação, estranhamento, adoecimento no trabalho, separação entre trabalho manual e intelectual, autonomia e criatividade. Porque queria mesmo era ouvir a alegria dele: «É uma paixão, uma paixão, já estou reformado mas adoro isto». «O meu trabalho começa aqui (aponta com as mãos para a cabeça), vai por aqui (segue com as mãos a curvatura da barriga), e sai por aqui». Exibe-me as mãos. «As minhas palmas são o público, quando vão a concertos». Fica a conversar. Ficamos ali juntos, ao balcão. Finalmente olha para os meus trompetes, diz-me que são chineses, «não faz bem ao menino aprender com isto, ele com isto já não vai aprender mais, assim tira-lhe o gosto». Decidimos comprar um novo trompete para o M. O D. mudou para o piano, onde toca Mozart com alegria e me deixa recados, bem humorados, a mim, que também recomecei a aprender, com algumas dificuldades, de tempo e de talento, «Estuda, mãe».

Levo para casa o trompete, o M. olha com os olhos brilhantes, muito feliz, começa com cuidado a tocar e todos nos surpreendemos…Parecia um outro instrumento, límpido, perfeito. O M. sorri, e fica quase só olhos, enormes, negros, brilham. Levamos os velhos trompetes para a banda filarmónica, onde os oferecemos para novas crianças darem os primeiros sopros. O Sr. Francisco tinha-se já despedido no fim da manhã de mim com um suave, e convicto, «Obrigada por me escutar, compreender-me». Eu quase não falei com ele, na verdade, só o ouvi, eu estava ali feliz de ouvir alguém feliz com o trabalho. Um dia todos viverão assim, felizes com o trabalho, inteiros, da cabeça às mãos.

RV, algures no ano de 2018

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