(A) normalidade

Centeno anuncia “normalidade” – a colecta é igual ao gasto. Esqueceu-se de dizer os números, avassaladores: a colecta é do trabalho, o gasto é em juros.
E a dívida pública está a subir paulatinamente desde sempre, estamos já em 250 mil milhões de euros. A «normalidade» permite, diz Centeno, construir hospitais. Com o seu ar genuinamente afável e “para hospitais”, quem vai dizer que não? Mas o SNS o que menos precisa é de construir hospitais – hospitais é mais um subsídio público à construção civil. Como a Parque Escolar com professores mal pagos e os teatros sem actores. Pontualmente há casos graves de hospitais a necessitar de obras, mas o que é urgente no SNS é contratar pessoas e pagar bem às que lá estão para que não se vão embora. Centeno é um ministro das finanças simpático, ainda assim é aquilo que Perry Anderson denominou um neoliberal de esquerda. A oposição vive na sombra do medo do retorno da direita, e fica em silêncio perante estes absurdos económicos de anunciar normalidade onde ela não pode existir. O problema é o que nós estamos a ver nos outros países: é que uma parcela da população vendo a esquerda governar à direita tendo como argumento principal não políticas públicas sérias mas a chantagem do “aceitem porque se não vem aí a direita”, esse parcela da população, farta-se e acaba a votar na extrema-direita, a passear na abstenção ou a votar na esquerda com o mesmo entusiasmo que toma óleo de fígado de bacalhau. Centeno, diz qualquer coisa de esquerda. Por exemplo, fazer uma auditoria à divida e contratar mais enfermeiros, pagar bem aos médicos, enfim, qualquer coisinha de esquerda. O país que trabalha está exausto. Não há normalidade nenhuma na vida de quem trabalha. A minha manicure por exemplo pinta unhas – das 8 às 4 num salão perto de mim, das 5 às 8 noutro salão no subúrbio onde vive, e ao sábado o dia todo. Vamos trocar dois dedos de conversa sobre esta anormalidade que é pintar unhas 12 horas por dia 6 dias por semana, ou montar carros, descarregar contentores, tratar doentes, garantir portos e aeroportos, hospitais e escolas, numa laboração continua desumana.

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1 thought on “(A) normalidade

  1. Pois é cara Raquel, mas este seu argumentário de esquerda extrema e conservadora não convence. A economia real onde nos inserimos é uma, (embora criticável), e a economia enquanto sistema ideológico marxista é outra embora compreensível. E repare que não sou daqueles que apregoam o fim das ideologias. Ou será que é favorável a uma revolução bolchevique tipo século XXI?

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