O hábito faz o Monge

O problema da “banalidade do mal” é quando inserimos a excepção dentro da normalidade. Foi assim que Hitler chegou a ser eleito homem do ano pela revista Time, na mesma data em que invadiu a Checoslováquia, e até respeitado publicamente por aquele que seria – no futuro – talvez o seu mais determinado adversário, Churchill. Não era fácil diplomaticamente a Costa e Marcelo não dar os parabéns protolocares a Bolsonaro. Mas era necessário. Por nós e pelos brasileiros. A política só é grande e nos tornas grandes quando faz uso da coragem. Não subscrevo a tese do totalitarismo de Ana Arendt, para compreender a história não basta equiparar regimes. Hitler e Estaline eram dois ditadores. A Alemanha hitleriana e os EUA de Roosevelt dois Estados capitalistas. A colectivização forçada de Estaline teve a expropriação dos camponeses dos EUA com a crise de 29 como paralelo. Podia continuar com comparações históricas que não reduzem tudo a uma tese totalitária, ainda que eu considero que há totalitarismo, e não só na URSS ou na Alemanha nazi. O medo da crítica é parte da conservação instintiva de todos os grupos. E as justificação para que tudo mesmo a vida privada seja vista como uma ameaça são sofisticadas. Mas a ideia do “hábito” nos seres humanos para compreender o nazismo não pode ser descartada. A banalidade do horror. É das hipóteses que mais me tem feito pensar ao longo da vida. O hábito é parte do nosso elementar instinto de sobrevivência, dependemos dele. Mas é também o que justamente nos impede de compreender que já estamos habituados ao que nos destrói. A grandeza da política reside precisamente na ousadia de transformar e isso implica romper o hábito diplomático para que o hábito do horror não se acomode.

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2 thoughts on “O hábito faz o Monge

  1. Concordo consigo, profª. dra. Raquel Varela. Li o livro de Hanna Arendt há muitos anos. Já não me recordo do que ela escreveu, mas uma ideia de banalidade do mal criou raízes em mim que tem a ver não apenas especificamente com uma qualquer obediência à autoridade, mas a pequenas cedências éticas que vamos fazendo no nosso dia-a-dia. Que contribuem para o nosso enfraquecimento moral e para tornar normal o discurso de quem se aproveita desse nosso enfraquecimento. Faço aqui uma pequena lista do que me ocorre neste momento, sem ter a mínima pretensão ou veleidade de a esgotar:
    Favorecer amigos, prejudicando quem não conhecemos ou quem não apreciamos; beneficiar de “cunhas”, prejudicando desnecessariamente pessoas mais merecedoras ou mais necessitadas; discutir ideias atacando o autor delas ou descredibilizando-o, em vez de argumentar com ideias, raciocínios e fontes de saber validado; denegrir a raça sempre que ouvimos falar mal de um trabalhador se ele não for branco (se for, denegrir o vínculo de trabalho – por exemplo, funcionário público -, ou a sua idade, ou qualquer outro aspeto); falar das pessoas sem respeito (por exemplo, dos políticos e doutros, o que banaliza o desrespeito); rir de anedotas ofensivas; etc.
    Creio que são estas pequenas cedências, para cada uma das quais facilmente arranjamos razões para achar que não são graves, que fazem com que cedamos mais facilmente quando se tratar de coisas que põem em causa o modo de funcionamento democrático de toda uma sociedade – é que nos habituámos a ceder.

  2. Problematizar num domínio restrito leva incontáveis equívocos. Pensar é organizar com imaginação, na intangibilidade do processo reside a sua significância. As normalizações sem acrescento são escolhas de outros que não servem a ninguém. A incerteza e o desequilíbrio encosta-nos à vida mas só em liberdade são elementos de criação. Para o ser não distinto o bem e o mal tem exactamente o mesmo valor.

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