O Holliganismo no Facebook

Por alguma razão que ainda não compreendi na totalidade as pessoas permitem-se um nível de agressão verbal quando não estão a olhar nos olhos o oponente, as redes sociais exponenciaram a visibilidade isso. Vem isto a propósito da brutalidade verbal que recaiu sobre mim e a Teresa Rita Lopes, a propósito da nossa oposição ao feminismo/metoo. Como esta semana tive a apresentação do Relatório final de burn-out dos docentes só agora consegui ter tempo para escrever sobre isso. Eu estou livre da violência verbal porque re-conheço o punhado de 50 pessoas hiperactivas de me odeiam e há muito as bloqueei, não as deixo frequentar esta casa pública que é o meu mural. Cada um de nós em função da competição do lugar onde trabalha e sua posição pública tem um grupo de inimigos dispostos a fazer do ataque pessoal uma forma de luta pelo seu lugar. No caso na Universidade, na política, no espaço público. Macro ou micro, na TV ou na nossa rua esta competição reproduz-se à escala do país, em todos os sectores. Mas como a Teresa Rita Lopes foi alvo de ofensas desta vez dei por elas, porque fui delas informada. Fiquei ainda mais chocada porque a Teresa Rita Lopes é uma senhora educada de 80 anos, embora já perceberam com uma frescura e sensualidade que uma jovem movida a ódio amais terá. E, claro, parte substancial da violência veio de mulheres, embora creio que de ambos os sexos.
 
Não pude deixar de notar que, talvez generalizando abusivamente, o grupo de pessoas que nos ofendeu de todas as formas é o mesmo que é contra o piropo, que acham uma forma de «assédio». Já a difamação, ataques pessoais com referências privadas, calúnias e muita violência verbal não é assédio, é o normal funcionamento da claques, sobressaem as ofensas onde há vazio de ideias. O verniz da igualdade cai ao primeiro argumento. Ora, confesso que, tendo eu toda a vida frequentado meios operários masculinos, onde se bebe bagaço às 8 da manhã para suportar turnos e um modo de vida brutal nunca ouvi, nem de perto nem de longe, à porta de um quiosque de uma fábrica, a absoluta violência que é demonstrada por este sector. Que, claro, se generaliza a uma parte do país. Neste campo aliás há muito conclui que só há uma coisa que nos divide, não é a classe, o sexo, o tom da pele nem a nacionalidade mas o chá. Isto é, a quantidade de boa educação e auto controlo nos foi oferecida no berço.
 
Em cada polémica com cada figura pública que gera ódios nas redes sociais, seja de esquerda ou de direita, devemos assinalar e registar quem tem como método de debate a violência verbal, e jamais os deixar ter qualquer tipo de responsabilidade pública e colectiva. Porque a minha mãe sempre me disse – e eu achava-a determinista mas o Coimbra de Matos confirma-o na psicanálise, o chá tem-se no berço, algures entre os 0 e os 3 anos, ou seja a empatia de onde deriva a honestidade intelectual e ética. A partir daí as pessoas não ganham nem educação nem honestidade intelectual, fingem ou são reprimidas, não têm sobre isto auto determinação. Mas ao primeiro sinal de ameaça cai o verniz e o pequeno monstro que habita dentro delas surge, se o fazem em matilha gera-se o holliganismo.
 
Por fim, não pensem que isto vem das redes sociais, demonizadas, não é o telefone que nos animaliza, ele só serve para transmitir o grunho primitivo que está adormecido dentro de tanta gente. As redes sociais são excelentes, agora nós sabemos mais e melhor quem são os seres que obedecem aos primitivos instintos animais em vez de à educação. Isso tem uma única vantagem: podemos saber assim a quem nunca vamos outorgar responsabilidades colectivas na condução da humanidade humanizada.

6 thoughts on “O Holliganismo no Facebook

  1. Parabéns, gostei muito da definição do “chá”. Descreve fielmente uma realidade, uma triste realidade, mas pelo menos sabemos o que temos e podemos fazer algo.

  2. ”Neste campo aliás há muito conclui que só há uma coisa que nos divide, não é a classe, o sexo, o tom da pele nem a nacionalidade mas o chá. Isto é, a quantidade de boa educação e auto controlo nos foi oferecida no berço.”
    Magistral! O alvo derreteu-se com tanto” bago de chumbo”

  3. Tenho bastantes dúvidas acerca da “excelência” das redes sociais. É certo que permitem contactos que não existiriam de outra forma, mas também permitem aquilo a que costumo chamar de “incontinência verbal”, sem qualquer espécie de filtro. Não defendo a censura, obviamente, mas defendo o primado da razão sobre o instinto primário,coisa que anda muito afastada nos tempos que correm. Acho que estou a ficar mais velha que a Teresa Rita Lopes. 😦

  4. É verdade, Raquel.
    Há uns anos, apeteceu-me aprender Catalão e frequentei, brevemente, um curso dessa língua na FLUL. A professora, catalã, achava-nos um povo “pacífico”.
    Eu contrapus, na altura, que os portugueses (de um modo geral, obviamente) não são pacíficos, são antes uma espécie de passivos-agressivos no que diz respeito a qualquer forma de autoridade, ou seja, raramente questionam ou debatem abertamente, mas ficam a ruminar os sentimentos de raiva e desejo de confrontação. No entanto, uma vez esbatido esse limite (da autoridade) tudo vem à tona e, por isso, algumas pessoas são de uma brutalidade feroz e irracional; na altura, usei o exemplo da forma como as pessoas conduzem nas estradas. Ainda penso da mesma forma. As redes sociais são outro triste exemplo, de esbatimento de fronteiras que leva as pessoas a extremos.

  5. O fenómeno que você descreve é o mesmo que qualquer pessoa que faça publicações na Internet que vão contra os interesses do poder estabelecido é também alvo de… (São inúmeras as pessoas proeminentes “anti-sistema” que se queixam do mesmo.)

    São uma espécie de claques, sim. Mas, não na sua forma tradicional. Pois, são pessoas que são pagas pelo próprio poder estabelecido, para andar a atacar quem se insurja contra o mesmo.

    A este fenómeno dá-se o nome de “trolls”. E, até na imprensa portuguesa já isto tem sido denunciado, sendo este tipo de gente descrita como “miúdos” que são pagos por “agências de comunicação” e que usam “contas falsas” no Facebook e afins:

    Prova 1: h*tps://blackfernando.blogs.sapo.pt/para-quem-duvidar-de-que-existem-trolls-88000

    Prova 2: h*tps://blackfernando.blogs.sapo.pt/mais-uma-prova-de-que-existem-em-143290

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