Sindicatos, em debate no JN

Ontem o JN publicou declarações minhas sobre sindicatos numa notícia sobre professores, o que naturalmente foi agora lido num contexto politico de forte ataque aos professores, não fico muito feliz de ver os meus estudos académicos usados como arma de arremesso contra direitos e lutas que considero legítimas, como é o caso de contagem do tempo de serviço dos professores. Dar «capa de verniz» académico à luta política sem ser correcto com os factos não é um bom caminho, perde a ciência e perde a política.
 
Cumpre-me por isso alguns esclarecimentos.
 
O JN quis saber se eu achava que havia muitos sindicatos, disse que não sabia quantos havia no caso concreto porque não estudei os sindicatos de professores. Até perguntei à jornalista quantos, por curiosidade. Mas que muitos sindicatos em Portugal são fictícios, só existem no papel, isso estudei. Em vários sectores. Que a proliferação histórica de sindicatos está ligada – não especifiquei nenhum sector – à blindagem estatutária, como o direito de tendência é difícil de exercer criam-se sindicatos paralelos. Às vezes à luta política, PS ou PCP e mesmo PSD incentivaram às vezes criação de novos sindicatos para tentar hegemonizar um sector ou parti-lo, dividi-lo. Que há casos até de sindicatos amarelos criados pelas próprias empresas.
 
Que há um problema de burocratização sindical em Portugal, mas que não é simples de resolver: não se criam dirigentes de um dia para o outro, meio de milhão de jovens saíram do país, o pais vive uma despolitização há mais de 30 anos, e em certos sectores o posto de trabalho que o dirigente sindical exercia foi mesmo extinto.
 
Que sou contra a limitação de mandatos que toda a esquerda, quase toda, defende, é populismo embora tenha boa intenção. Sou a favor da revogação de mandatos, é outra coisa. Quer isto dizer que um dirigente se for necessário, bom, e não se conseguir substituir, pode ficar por 20 anos no cargo mas se descumprir o que prometeu deve sair do cargo antes mesmo das eleições. Pode levar-se décadas a formar um bom dirigente, deve-se criar condições para formar jovens dirigentes, reais, mas não se pode deitar fora saber politica em nome de uma medida puramente administrativa, que aliás tem vários expedientes para ser contornada. Penso o mesmo para os deputados. Deviam perder o seu mandato, sem esperar 4 anos, se não cumprirem com o programa. Limitação de mandatos é uma medida administrativa, revogação é uma medida política democrática.
 
Finalmente perguntaram-me pelo novo sindicato de professores.
O novo sindicato de professores STOP parece ter surgido – sublinho parece porque não o estudei, não contabilizei filiados, programa, etc – num contexto de radicalismo de uma base mais jovem e mais radicalizada – a sua expansão na greve deve ser lida aos olhos da degradação efectiva das expectativas dos professores e consequente radicalização de uma parte da sua base, e à luz da dificuldade de o Governo manter paz social nos locais de trabalho no quadro do colete de forças dos Tratados europeus a que se submeteu a Geringonça.
 
Finalmente creio que em momento algum referi nomes particulares de qualquer dirigente na entrevista. Embora tenha sido realizada quando eu estava de férias entretida a namorar a 10 horas de avião de casa, não me recordo de ter referido nomes seja de quem for. Tenho colegas, amigos, em vários sindicatos, trabalho com muitos e isso nunca me impediu de exercer a minha total liberdade de crítica, não sei nem trabalhar nem viver de outra forma. Se tivesse que questionar a acção de um dirigente fazia-o directamente, sem mediações, como o fiz várias vezes. Não sou de «indirectas» e «recados» com ninguém porque isso sufoca a vida cientifica, pública (e privada).
 
Acrescento. Sou totalmente a favor da luta em curso. Não só acho que têm direito ao tempo de serviço como António Costa devia devolver os cortes. Não é parar os cortes e chamar a isso devolução. É devolver mesmo o que foi tirado em matéria de salário e não só de tempo para a reforma e carreiras. Esta é a minha posição face a toda a função pública e não só aos professores.
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