Votar na extrema-direita, o que nos ensina o passado.

A propósito da força dos votos na extrema-direita no Brasil e outros países a história não se repete, mas as analogias com o passado são um ponto de apoio incontornável para analisar o presente. Partilho convosco uma parte do meu recente livro onde debato o tema da ascensão do voto eleitoral no partido nazi na Alemanha, que foi determinado sobretudo não pela classe social mas pela combinação de classe social com partidos, isto é, onde havia fortes partidos anti-nazis estruturados, partidos com militantes, fossem comunistas, social democratas ou católicos, foi onde o Partido Nazi teve menos votos.

Também ao contrário do que se afirma no senso comum Hitler na eleição que foi nomeado chanceler não vinha de um subida constante nas eleições. Sobre as razões que levaram o nazismo ao poder está a política da alta burguesia alemã de o apoiar ou ser conivente com ele, a desastrosa política da URSS sectária e ainda o medo da social democracia face à revolução, não compreendendo que naquele época história na Alemanha não havia três opções: democracia parlamentar com direitos sociais, fascismo e revolução. Só havia duas: fascismo ou revolução social, porque a crise económica tinha colocado apenas duas opções em cima da mesa, ou militarização da sociedade para conservar os lucros ou derrube do capitalismo alemão.

Não havia a opção de com a vertiginosa queda dos lucros na produção uma parte da burguesia ilustrada dividir a renda com os trabalhadores num pacto social como foi Weimar – isso foi impossibilitado pela crise de 29 e nessa hora, a hora mais importante da história da humanidade, uma parte dos empresários alemães foi anti-nazi, mas o conjunto das suas representações políticas foi seu apoiante ou com ele conivente. Morreram 80 milhões de pessoas.

O nazismo foi, bem como a Segunda Guerra, a maior derrota sem combate de uma classe trabalhadora na história, cujas direcções politicas oscilaram entre o sectarismo doentio de não perceber o monstro que aí vinha e o apoio aos partidos da burguesia democrática que estavam de facto com mais medo da revolução do que do nazismo.

“Quando em Julho de 1932 a votação em todo o país era de 37,4%, nas grandes cidades era dez por cento inferior. Em Berlim e Hamburgo suportou perdas consideráveis. É verdade que várias pesquisas demonstram apoio entre alguns sectores operários mas estes, que constituíam 54% da força de trabalho alemã, estavam sub-representados no NSDAP.

O partido Nazi não era apoiado pela maioria dos desempregados. Áreas com alta concentração operária e de desempregados, como a região do Ruhr, viram o Partido Comunista ter 60 a 70% de votos. Segundo Geary, «o resultado global das eleições para os conselhos fabris, em 1931, viu apenas 710 representantes da Organização Nazi das Células Fabris (NSBO) eleitos contra 115.671 sindicalistas livres (de orientação SPD) e 10.956 cadeiras para os sindicatos cristãos, predominantemente católicos. Em Janeiro de 1933, o NSBO tinha cerca de 300 mil membros, em comparação com um milhão de sindicalistas cristãos e mais de quatro milhões de sindicalistas livres» .

(…) Em Julho de 1932 os nazis tiveram 37,3% dos votos, nas eleições de Novembro tinham perdido mais de 4% e 34 lugares do Parlamento. Que aí usaram o terror – o incêndio do Reichtag – para recuperar influência, e que nesse tempo a reacção dos partidos de esquerda foi nula. Pouco depois sobem a votação.

Que aí usaram o terror – o incêndio do Reichtag – para recuperar influência, e que nesse tempo a reacção dos partidos de esquerda foi nula. Pouco depois sobem a votação. Ainda assim se todos os outros partidos se tivessem coligado contra Hitler tinham impedido a sua vitória. Mas, sublinha o historiador norte-americano, Hitler era apoiado financeiramente pela Krupp, a I.G. Farben , as grandes empresas que vão ser o alicerce da produção de guerra: «Para a classe dominante da Alemanha, o seu apoio ao fascismo não foi meramente uma reacção à crise, mas antes a maneira de tirar partido da crise. Os grandes negócios, o exército e outros remanescentes do Império Alemão conferiram aos nazis o poder e uma tarefa a cumprir. O problema foi os fascistas alemães deixarem-se levar pelo entusiasmo, iniciarem uma guerra e, depois, perderem-na».

A conclusão do historiador Dick Geary é semelhante. Partilhamos também dela, porque remete para a centralidade da política, por outras palavras, a existência de organizações e seus dirigentes é determinante: «O NSDAP foi mais bem-sucedido onde não teve que lidar com lealdades ideológicas e organizacionais pré-existentes fortes». Nas palavras de Pierre Broué, uma «gigantesca derrota sem combate».

Mas, se estas lealdades eram tão fortes e disseminadas pela Alemanha, ainda que concentradas em grandes regiões mineiras, operárias ou cidades maiores, no meio de um meio rural tendencialmente hostil, porque o caminho do nazismo foi rápido, e, de certa forma, fácil?

Três factores. O nazismo resultou da ausência de apoio, por parte da URSS e da social-democracia, aos projectos revolucionários da década de 30 do século XX; resultou do apoio militante do sector industrial e financeiro alemão a este projecto nazi; e da inacção, quando não cumplicidade activa, da social-democracia e suas alianças a poderes semi-bonapartistas antes da ascensão de Hitler ao poder.»

In Raquel Varela, Breve História da Europa, Lisboa, Bertrand, 2018.

3 thoughts on “Votar na extrema-direita, o que nos ensina o passado.

  1. Muito gosta a extrema-esquerda de equiparar Fascismo a extrema-direita…

    Direita quer dizer Conservadorismo (de costumes cristãos, no Ocidente) e pró-Capitalismo (ou pró-“Mercado Livre”, onde este tenha existido).

    Ora, o Fascismo é uma ideologia revolucionária, *centrista* e com origem na extrema-esquerda (quer no caso dos fascistas italianos, quer no caso dos nacionais-*socialistas* alemães) – logo, não pode ser “extrema-direita”.

    Fascismo é uma mistura de direita com esquerda (i.e. uma “terceira via” que mistura ideias capitalistas com ideias socialistas) que não pode ser enquadrada em nenhuma destas.

    E, por exemplo, o ser-se “nacionalista” ou “autoritário” (ou mesmo “ditador”) pode tanto acontecer na direita como na esquerda.

    (Ou estou eu muito enganado no que digo – e não vejo, ou sei, o que você, como historiadora, sabe melhor do que eu?)

    • P.S. – A pergunta que faço na minha última frase, faço-a com todo o respeito. Apenas, o possível tom forte com que escrevo as minhas palavras, deve-se ao facto de me causar revolta a constante demonização da (verdadeira) direita, quando são os partidos do centro, do sistema protofascista europeu que temos (fundado, em parte, pelos nazis de Bilderberg) de quem se devia falar mal e muito – e que estão claramente a afundar os vários países que dominam.

    • P.P.S. – E, eu sei que a colocação que você fez é sobre a realidade brasileira – e não a europeia. Mas, tendo você dito numa anterior colocação que Bolsonaro é fascista e referindo-se agora ao votos nele como votos na extrema-direita, penso que não é só o sistema de “rotulação” política (“esquerda-direita”) usado no Brasil que devo contestar, mas o que se usa, em termos genéricos, em todo o Mundo. (Ou, mais uma vez, talvez esteja eu errado – e a classificação política “esquerda-direita” difere de país para país, é isso?)

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