Ele não, ela sim e nós o quê?

Acordo de manhã a ler o Globo com vista sobre a literária baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A neblina que hoje ofuscava o Rio, às 6 da manhã, fantasmagórica, é uma metáfora da esquerda. Hoje a palavra de ordem no Brasil para derrotar Bolsonaro (não é um radical, nem um populista, cara revista Visão, é um fascista, olhem que eu não uso o termo fascista com muita frequência) a palavra de ordem dizia eu é “Ele Não, Ela Sim”. Aqui chegámos. Pior já não pode ficar. É o bater no fundo da política de identidade individualista sem qualquer vislumbre de mudança universal.

O Globo informa-me do óbvio. Nas pesquisas a maioria das mulheres diz que não sabe em quem votará. Mas a maioria das que sabem votam em Bolsonaro. Sim, Ela Sim, pode ser uma Bolsonarista. É uma palavra de ordem – primitiva, porque natural, anti política -, que no limite pode incentivar ainda mais as mulheres que já votam no Bolsonaro a votar mais, e muitas pobres (como aliás indicam as pesquisas) a ficar ainda mais confusas, afinal é a Ela a minha vizinha da Igreja ou Ela a deputada da esquerda?. Palavra de ordem que exclui de facto os milhões de homens que não querem votar Bolsonaro, entre eles os milhões de operários, confusos por anos de PT, operários sem os quais jamais qualquer mudança no Brasil pode ser feita sem terminar numa violenta e sangrenta contra-revolução: a Embraer é um forte militar, a favela é um campo aberto onde todos os dias se dispara sem resistência alguma possível. Não, os trabalhadores pobres e informais e os organizados não são iguais. Os operários podem ser um exército, os favelados são vítimas indefesas. Para derrotar o Bolsonaro é preciso fazer uma aliança real com milhões de operários tão machistas como ele. Não cedendo ao machismo, mas ganhando-os para políticas comuns que não podem ter como eixo o género mas direitos sociais universais.

Quando as mulheres foram a vanguarda – tomaram com coragem a frente – em Fevereiro de 1917 da luta contra a guerra e a fome e o czarismo na Rússia, saíram à rua a gritar “Pão!”. Não a gritar “Somos Mulheres”. As mulheres podem ser um gatilho de resistência à barbárie no Brasil se dia 29 saírem à rua a gritar “fim das favelas, casas para todos!”; ruas asfaltadas para não limpar a casa o dia todo; água canalizada bebível; transportes seguros para os nossos filhos, jardins para brincarem; saúde gratuita para todos!; educação decente para todos. Se gritarem somos mulheres estarão a ser reduzidas, paradoxo, ao que Bolsonaro as quer reduzir – a serem apenas e só mulheres. Os brasileiros precisam de viver em paz, com direitos sociais que lhe permitam viver como gente, Bolsonaro oferece mais guerra, mais balas, mais violência a um país destruído pela violência. Bolsonaro é um pistoleiro. Nós precisamos de construtores de casas, médicos e professores, paz. Nós, homens e mulheres.

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