O Fim da Linha

Partilho convosco o testemunho de uma professora que recolhemos no estudo do burnout, sem mais comentários da minha parte, peço-vos a paciência de em 3 minutos chegarem ao fim da leitura:
«O MEU TSUNAMI PROFISSIONAL.
Ali estava eu na sala de espera de um conhecido psiquiatra. Deixara de dormir,a angústia dolorosa aumentava de dia para dia, a ansiedade começara a fugir do controlo.Quem diria que uma professora alegre e envolvida iria chegar a tal estado de erosão psíquica!?!Tudo parecia irreal,um pesadelo,um castigo.
Aos poucos a carga burocrática tornara-se a primeira tarefa a que era preciso responder come eficácia :relatórios, grelhas, planos, papéis inconsequentes, um calvário para quem gostava da relação de aprendizagem com os alunos.
Um sentimento de impotência e de culpa dominava a criatividade e a preparação das aulas. Aumentou o tempo de presença na Escola, sem o recato de um espaço para poder pensar e refletir. As aulas de substituição eram penosas,não eram os nossos alunos e nós não éramos os seus professores, não eram as nossas disciplinas. Que raio estava a acontecer a toda uma geração que vivia de bem com o ensino? Que fizemos de tão mau para nos tratarem assim?
Entro para a consulta. Num esforço de sistematização comecei a dizer o que sentia e a fobia que silenciosamente se entranhara, sob a forma de insegurança.
De repente tudo era feito para a mal amanhada avaliação, tudo na plataforma informática a qualquer hora,perdendo-se aquele toque humano de troca de opiniões. Não havia tempo. Era tudo para ontem,sem lógica,sem bom senso.
A AVALIAÇÃO,O FIM DA GESTÃO DEMOCRÁTICA E A DIVISÃO ENTRE PROFESSORES TITULARES E NÃO TITULARES quebraram cumplicidades e solidariedades muito necessárias a um bom desempenho.
Adorei a minha profissão, levantava-me a assobiar, vibrava com os alunos, relaxava na sala dos professores. E agora? Agora queria fugir. Porquê? Sentia desconsideração, uma despersonalização ambiental, restavam os alunos.
Estes, fruto do clima estragado entre professores,também se ressentiram e alguns espreitavam fissuras para galgarem oportunisticamente terreno,com muitas direções a apoiarem os pais sem critério. Era toda uma disfunção profunda da democracia que se instalara na ESCOLA. Foi esse o trabalho sujo do sistema de avaliação dos professores: pôr uns contra os outros,com custos pessoais e sociais. Em termos de transmissão de Know-how foi um hiato que se refletirá com toda a certeza no futuro.
Eu tratei-me e tive bom suporte familiar. Há milhares a penar,de mansinho, como quem mói um sentimento.
Quero acrescentar que uma colega ,excelente profissional, adoeceu com um cancro .Adorou estar no IPO, porque ao contrário da Escola, não havia histeria, as pessoas eram afáveis, não tinha que lidar com o absurdo, estava em paz!»
Se outros professores quiserem deixar o seu testemunho individual podem enviar para o meu email com identificação e data de nascimento. raquel_cardeira_varela@yahoo.co.uk

1 thought on “O Fim da Linha

  1. O sofrimento é a todos os níveis uma condição inaceitável, num contexto de dependência é a apropriação da nossa vida por outros, a verdadeira escravidão.

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