“Um fraco rei faz fraca a forte gente”, dirigentes e emancipação social na Europa do século XX

Começo neste artigo a minha colaboração com o Portal dos Jesuítas em Portugal. Neste artigo escrevo sobre crise de direcção e distopia, capitalismo e a Europa como vanguarda mundial da “resignação” ideológica.
“Um fraco rei faz fraca a forte gente”, dirigentes e emancipação social na Europa do século XX
Por Raquel Varela.
Nos últimos anos, pós crise de 2008, fomos cuidadosamente educados na resignação, que é uma patologia ideológica, uma espécie de não lugar. Não uso o termo patologia em vão. Embora de origens sociais distintas, a depressão individual (e colectiva) está intimamente ligada com a resignação. Contrariamente à ideia de revolta, conceito que em parte da psicanálise é essencial para explicar a auto estima. Não são mais felizes os que estão melhor ou até mais estáveis, mas os que lutam e resistem. Quem não nega a sua condição e se resigna entra numa espiral depressiva. Quem não tem futuro criador não suporta a força do presente.
À ideia do pós guerra de que o capitalismo teria um mundo de crescimento e emprego, e liberdade, para oferecer à humanidade no futuro, sobrepõe-se hoje a distopia do sacrifício, acompanhada das narrativas apocalípticas: o aquecimento global, a impossibilidade de todos vivermos bem devido à escassez de recursos, e a incerteza científica e o irracionalismo. Qualquer filme de zombies, invasões extra terrestres e oceanos a engolir populações parece mais plausível aos olhos da maioria de se tornar realidade do que uma simples fábula burguesa ilustrada, como o Pinóquio, que vencia as fraquezas individuais e mudava; ou uma utopia socialista, que acreditava na transformação do homem com a mudança colectiva em que seriamos mediados por relações de bem-estar e não de troca de bens comerciáveis. Agora seria o tempo de «aguenta, aguenta» porque ao virar da esquina…ainda será pior.
Isto, apesar de hoje o nosso domínio científico ser muito superior ao que era há 100 anos atrás, bem como a produtividade, a tecnologia, o conhecimento do mundo e os meios culturais e sociais para o transformar. A rigor, os nossos limites não são do foro natural nem se avizinha o dilúvio. Os nossos limites são cada vez mais subjetivos, portanto o que nos separa de um mundo decente é a escolha política.
A Europa é a vanguarda desta ausência de utopia e contamina o mundo com a resignação ideológica, porque a sua classe trabalhadora confiou em projectos políticos que falharam. Ela, a mais consciente e culta classe trabalhadora do mundo, hoje com um grau de sofisticação cultural e científica ímpar na história, é a mais desiludida. Porque foi também a mais iludida. Esta ilusão parte da ideia central de que “somos todos iguais”, mais cedo ou mais tarde todos nós sucumbimos ao poder. Para ganhar adeptos esta premissa deixou de referenciar o papel dos dirigentes na história. Ocultou que aqui, neste velho Continente, não somos todos iguais. Uma massa – maior do que em qualquer parte do mundo – de homens, e mais tarde também mulheres, morreu a defender um conjunto de ideais que procuravam transformar a humanidade e libertá-la do toque de midas de tanto trocarmos relações por coisas nos transformarmos em coisas.
A crise actual – que é económica, política, cultural, e é profunda – deve-se, entre outros fatores, ao colapso moral da social-democracia, ao colapso da ideia de que os lucros podiam crescer com o aumento concomitante dos salários. Este colapso social-democrata dá-se com a “terceira via” e o abraço das políticas neoliberais pelos partidos trabalhistas e socialistas, iniciado na segunda metade dos anos 80 – sim, antes da queda do Muro em 1989. Pois ao mesmo tempo que Margaret Thatcher mandava a polícia a cavalo avançar com violência sobre os mineiros, a espinha dorsal dos sindicatos do «carvão e do aço» as grandes centrais sindicais dos principais países europeus, dirigidas por partidos social-democratas e comunistas, negociavam a reestruturação produtiva, sem luta.
A tentativa de fazer face à queda tendencial da taxa de lucro a seguir à crise de 1981-1984, criando um mercado de trabalho europeu hipercompetitivo, inseguro, incerto, onde os lucros estariam mais seguros, ou pelo menos não tão à mercê do humor das crises cíclicas, levou a social-democracia a abdicar de si própria, just in time, qual retorno dos anos 30.
Já os Partidos Comunistas carpem a queda de um mundo que nunca existiu – a URSS não era um Estado dos Trabalhadores, por se ter tornado uma nova forma de Estado contra os trabalhadores.
A ideologia do assistencialismo, das pré-reformas, do colchão social focalizado, da desistência da luta pelo direito ao trabalho, pela redução da jornada laboral sem redução salarial, nasceu antes da queda do Muro, pela aceitação da chantagem da deslocalização. Trocaram, como programa político, o direito ao trabalho pelo direito ao subsídio de desemprego. Os anos 90 só vieram adensar um caminho que tinha sido traçado no meio da década de 80 do século XX, em sede de Concertação Social, em praticamente todos os países europeus, com excepção – e mesmo assim só parcialmente – da França, onde foi mais tardio (justamente pelo impacto que o Maio de 68 teve na constituição de sindicatos e partidos radicais que retardaram a aplicação das medidas neoliberais e assistenciais, mantendo um forte Estado Social e emprego protegido).
As grandes tentativas emancipatórias do século XX europeu, a revolução russa, a espanhola, a resistência ao nazismo, a revolta húngara, o Maio de 68 ou a Primavera de Praga, a Revolução dos Cravos, para citar apenas alguns dos momentos em que o espectro da revolução, uma e outra vez, assombrou o velho continente, foram esmagadas por contra-revoluções brutais, ou derrotadas por amplas concessões, por via de reformas, que os Estados e as classes dirigentes foram forçados a concretizar.
As contra-revoluções não implicaram só a cooptação e apoio de dirigentes sindicais e políticos dos trabalhadores, de jornalistas e intelectuais que “mudaram de lado”. Mas também métodos de guerra civil contra grande parte dos dirigentes destes processos, assassinando-os, perseguindo-os de forma desumana no final dos anos 1920 na Rússia, na Espanha republicana, na Alemanha nazi, em Viena e Budapeste, na resistência grega depois da guerra, sob os tanques soviéticos de novo na Hungria em 1956, ou na Checoslováquia em 1968.
A hipótese de que os movimentos de emancipação caminhariam inelutavelmente para o totalitarismo esconde a morte de milhares de dirigentes que lutaram coerentemente por essa emancipação contra o totalitarismo. E que por ela morreram. A eles devemos em primeiro lugar o melhor que o continente europeu nos deixou. Porque se, como disse Camões, «um fraco rei faz fraca a forte gente», também dirigentes fortes com projectos de liberdade e igualdade souberam elevar e organizar as grandes revoltas sociais europeias, impondo limites claros ao caos competitivo do modo de produção capitalista, conquistando o pleno emprego, saúde protegida, educação assegurada, velhice cuidada, independentemente da origem social. Numa palavra, a ideia socialista originária.
Seria simplista dizer-se que o projecto moderno da civilização foi imposto apenas pelo mundo do trabalho. Isso ignora os passos em frente dados pelo próprio desenvolvimento do capitalismo. Mas não o é afirmar que a política da emancipação – e estamos no bicentenário do nascimento de Karl Marx (1818-1883) – foi forjada por essa tradição histórica que moldou os dirigentes que dedicaram as suas vidas a encurtar o caminho que separa quem governa de quem é governado, quem sabe e quem faz, quem pensa e quem executa, quem escreve e quem lê (ou não lê). Muitos foram mestres sem discípulos. Mas portadores de um romantismo revolucionário que impulsionou a humanidade para melhor.

2 thoughts on ““Um fraco rei faz fraca a forte gente”, dirigentes e emancipação social na Europa do século XX

  1. É sempre um preço demasiado alto pagar algo com a vida de alguém. Não é opção repetir a história, a conquista das mesmas derrotas é o mais invariável dos retrocessos. Nunca por nunca devemos querer menos que o ideal, nós não somos assim tão pouco.

  2. Tenho pena (embora entenda as motivações) de a Raquel e o Paulo Morais (da Transparência) não se envolverem mais na política, ou até, em última instância criarem um partido político que traga sangue fresco (e ideias mais frescas ainda) ao nosso país. Teriam o meu voto.

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