O fogo da resignação

Nada ilustra tão bem o momento actual da política da resignação – sem lideranças sérias e empenhadas que acreditem num país melhor – como o comentário do Ministro. Perante a total desorganização em que as chefias máximas dos bombeiros vêm dizer «ninguém se entende», milhões de euros queimados com o trabalho e a casa das pessoas destruídas, meia dúzia de altos quadros que previram tudo, entre eles o coordenador do relatório de Pedrogão, Xavier Viegas, que na secretária a 200 km conseguem prever melhor a direcção do fogo do que 1300 homens no terreno – número que raras operações de guerra mobilizam para uma acção conjunta. O silêncio dos accionistas das celuloses, que quanto muito assistem ao fogo da Quinta do Lago, comentando «que céu alaranjado tem hoje o Algarve», e os milhões de impostos esvaídos a mobilizar bombeiros e carros e equipamento caríssimos, tudo inútil e em vão. Perante tudo isto o Ministro comenta: pelos menos estamos todos vivos. É preciso ouvir duas vezes para acreditar.
 
Que país e projecto de vida tem para nos oferecer quem foi eleito? Paisagens cuidadas, relação campo cidade com qualidade de vida em ambos os espaços, agricultura sustentável, soberania alimentar e alimentação de qualidade, respeito pelo trabalho de uma vida. Uma vida, enfim, melhor, feliz, decente para quem aqui vive? Não, o que tem para dizer quem Governa é «pelos menos estamos vivos». A doentia resignação. Há um Salazar que convive no coração de cada governante e que a todo o momento discursa «Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século procurámos restituir o conforto das grandes certezas».
 
A grande certeza de tudo ficar na mesma, e pelo meio, pelo menos, não morrer – eis o programa de futuro que nos oferecem. Estamos enfim dilacerados pelo imobilismo, o obscurantismo que vira costas à ciência e o colapso do Estado enquanto centro de organização do bem estar comum.
 
Só se está bem na Quinta do Lago. Essa é a verdade dilacerante. É um país onde cada vez menos pessoas encontram bem estar e desejo de aqui, aqui, sermos felizes. E nós, Sr Ministro, não queremos estar vivos, esse é o objectivo do burro e da galinha que fugiram do fogo. Nós queremos ser felizes.

3 thoughts on “O fogo da resignação

  1. Os sinais dessa desistência estão em todo o lado, estranhamente invisíveis em todo o lado. As pessoas parecem ter a pretensão de resolver coisas complexas com o mais imediato dos impulsos. A competição é e será sempre um estado de subjugação.

  2. Escreve com tanta alma… Adoro ler os seus textos. O país está assolado por partidos recheados de pessoas medíocres. Em vez de escolherem os melhores na área, todos escolhem os amigos.

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