Não somos todos iguais

O «caso Robles» não é mais um que em breve será esquecido na espuma das redes sociais.
A direita está a dançar de felicidade dizendo «Viram? somos todos iguais». As regras do jogo são que a liberdade individual de comprar e vender deve ser ilimitada. O PS está calado, tudo o que não o deixe só com Sócrates e ainda magoe o BE é bem vindo nesta altura. Todos temos as mãos sujas quando o público se encontra com o privado, diz o Observador. Como a direita já tem dificuldade em encontrar um único dos seus que não esteja metido na lama até ao pescoço hoje festeja a vitória do “é preciso servir o Estado servindo-se do Estado”. Somos todos iguais.
Robles respondeu sim, somos todos iguais por isso a lei também é para mim, cumpri a lei (selvagem) em vigor, por isso não fiz nada de errado. Tentou sair por cima de uma operação especulativa em que construiu 11 andares de 45 metros quadrados na zona mais cara do país e explicou que era para viver com a irmã. São «as regras do jogo», é tudo legal. Somos todos iguais.
O BE, pela sua porta voz, veio dizer sim senhor, somos todos iguais, não há ilegalidade, comprou mas não vendeu. Fumou mas não inalou.
Uma parte, creio que ainda assim minoritária, dos apoiantes do Partido baterem palmas e explicaram que é o mesmo que trabalhar para uma empresa privada, vender uma casa herdada, ou trabalhar numa câmara do PSD!? Ou seja, não percebem – nem podiam perceber com a ausência de educação política que têm estes dias -a diferença entre quem exerce cargos políticos públicos e quem não os exerce. Não percebem que a representação política que os militantes e eleitores conferem aos dirigentes dá-lhes mais poder e por isso mais responsabilidade e mais escrutínio. Não percebem que não somos todos iguais. Não somos iguais porque nós não somos eleitos do BE, engenheiros civis, com acesso a negócios fáceis e legais por antecipação, porque para isso é preciso ter poder. E nós delegámos esse poder.
Falsos moralismos é manter o vereador e ter um ataque apoplético porque um livro é azul e cor de rosa.
O que dá poder à direita não é nos chocarmos com a notícia e exigir a demissão de Robles. É Robles ter-se comportado como um vulgar tipo do Bloco Central. Legalmente. A direita sai ainda mais reforçada deste processo porque Catarina Martins comporta-se como qualquer líder de partido do Centrão – é preciso acima de tudo salvar o Partido e os cargos. Chama-se pragmatismo.
Ora, nós não somos todos iguais. Tenho um punhado de amigos e familiares que estiveram em cargos públicos deste país e saíram de lá com o salário ou a reforma, nada mais. A um deles, muito próximo, tentavam dar prendas, em vão. Um dia contou-nos que tinha dado ordens à secretária para não deixar passar da soleira da porta do gabinete dele qualquer prenda, só «lamentava os belos chouriços e pão caseiro» que não trazia para casa. Eu quando soube que havia entre as oferendas perfumes pedi para me trazer e ele riu-se e disse «jamais, à mulher de César é preciso ser, não basta parecer». Não me enganei no trocadilho. Esta pessoa tinha, pelo cargo que ocupava, acesso a conhecer de antemão que terras iam passar a auto-estradas, por exemplo, ou passar de área agrícola a área possível de construir, etc. Nunca comprou nada na vida. Tem hoje uma reforma de técnico superior da função pública, menos de 2 mil euros por mês. Podia contar-vos uma dúzia destas histórias. Não somos todos iguais.
Embora eu, que não tenho falsos moralismos, tenha adorado a piada do Robles Re-Marx, ri muito, agradeço a quem a inventou, tenho aqui que defender o velho Engels que foi chamado à colação nesta história. Engels era filho de um grande industrial e foi ele que sustentou em parte Marx e lhe passou a documentação da fábrica para ele estudar e escrever O Capital. Engels tirava dinheiro do lucro da fábrica para entregar às associações e partidos de trabalhadores. Engels era também um mulherengo, apaixonado por uma operária Irlandesa, Mary Burns. Adorava sair da casa aristocrática e ir para o meio dos bairros miseráveis de irlandeses, onde a conheceu, conspirar para educar e organizar os trabalhadores. Não há notícia que tenha aproveitado estar numa dessa reuniões conspirativas em que lutava pelo socialismo e começar a observar o tamanho das mãos dos operários e a sua resistência física para ver quais deles seriam mais produtivos na sua fábrica…Seria claro legal,dentro das regras do jogo. Mas aí Engles seria mais um entre os que se tornam iguais pelo mercado. E ele quis fazer a diferença, pela política. Não somos todos iguais.
Actualização: Robles acabou por renunciar agora ao cargo. Não sei se o BE venceu, depois das declarações infelizes de Catarina Martins, mas a res publica venceu. E agora a direita e o Centro perderam um argumento de peso e vão ter que explicar porque os que na suas alas fazem isto sistematicamente continuam todos a servir o Estado, servindo-se dele. E não renunciam. Aguarda- se a lista, caro Observador.

1 thought on “Não somos todos iguais

  1. Até que ponto é razoável e coerente alguém ser contra o capitalismo e enriquecer através dele?
    Não é possível alguém estar inserido num sistema e acreditar que não tira partido deste, as pessoas são todas diferentes e particularmente diferentes no que diz respeito à sua posição relativa. A idade da inocência parece estar a acabar é cada vez mais difícil diferenciar o que na prática é igual.

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