A Grécia e o Irracionalismo da Política

Ontem ouvimos nos Claustros dos Jerónimos a Orquestra do Estado de Atenas. O concerto começou com um minuto de silêncio e respeito pelas vitimas e suas famílias,. Porque é assim que se começa a falar sobre tragédias que implicam morte e sofrimento. A música pode esperar. Não com comentários frios, como fez o deputado Carlos Abreu Amorim.
A Grécia tem um território desordenado com montanhas e ventos cruzados do Mediterrâneo, não é Portugal; Portugal tem monocultura de eucalipto e falta de protecção civil, não é a Grécia; ambos os países têm o seu orçamento voltado para pagar juros, o que desfalca os sistemas de alerta e emergências. Tudo isto é verdade. Mas Sr. Deputado, começa-se por «os meus sentimentos». Porque a política é o terreno das relações.
Porém, por respeito também às vitimas, é necessário não transformar a razão em luto – o luto é das famílias. Só a falta de noção, narcísica, nos permite ousar ficar tão tristes, ao lado das famílias. Nós estamos chocados, mas não perdemos ninguém. A nós, cabe-nos a responsabilidade de pensar e agir. O oportunismo da frieza é tão doloroso como a demagogia das emoções sem dar respostas políticas. A cada vez que uma tragédia se repete dizer que estamos muito tristes é muito pouco.
O que assistimos nas TVs é no imediato o apelo emocional, irracional, da dor. E – o que é mais desrespeitoso para com as vítimas -, a ideia transversal de que estamos perante uma catástrofe «natural», sublinho natural. Portanto seria alheia ao homem. Antes de afirmarmos isso – a força do vento, o calor, tudo natural -, temos que dizer sem qualquer sombra para dúvida que ainda não sabemos o que aconteceu, mas certamente não há nada de natural na morte de dezenas de pessoas nas suas casas de férias – ou há falta de guardas florestais, ou de equipas de emergência, ou desordenação urbanística, ou abandono agrícola com emigração massiva, ou monocultura, no caso de pinheiro, etc, ou…um pouco de tudo.  Estamos perante um problema político. E não uma “emoção”.Quem Governa não consegue Governar e salvaguardar pessoas e bens.
Manda o respeito que não se afirme publicamente que o que aconteceu é inevitável porque o fogo e o vento são imparáveis. Vivemos no século XXI, hoje temos domínio, isto é, conhecimento acumulado, sobre politicas de território, florestas, e emergências civis que nos permitem evitar tragédias quando o fogo, que é natural no Mediterrâneo, invade com ventos fortes os territórios. Vi todo o concerto de ontem com as imagens angustiantes das casas a arder, sou como vós sensível ao sofrimento, porém o irracionalismo e as emoções não se podem sobrepor à urgente necessidade de dizer aos que perderam a família e aos que cá estão “isto não vai voltar a acontecer”. A quem Governa e dirige pede-se soluções, sinceras e racionais. Nem brutalidade, nem melancolia. Razão e acção.

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