Tommie Smith e John Carlos são admiráveis

A revista do Comité Olimpo entrevistou-me. Falámos sobre a minha actividade física mas sobretudo sobre os movimentos de resistência na história do desporto – referidos no meu recente livro sobre História da Europa – , o que penso da glorificação dos jogadores hoje, e da mercantilização do futebol. Também umas palavras sobre o meu irmão, desportista profissional. Aqui fica para quem quiser ler.
Que relação tem com o desporto? É ativa ou contemplativa?
Eu sou hiperactiva (risos) – acordo todos os dias eléctrica às 6 da manhã. Mas para escrever em silêncio por horas, não para correr. Mas às dez da noite adormeço em qualquer lado. Faço pilates e caminhada com regularidade. Ginásios só o meu que é familiar– aqueles ambientes artificiais, fechados, impessoais onde nos tratam por tu – todo os dias um trabalhador diferente – sem luz natural, com a Tv ligada ou música estilo batida no zinco (tecno) para mim equivale a uma sessão de tortura.
Faço muito, em família, bicicleta, montanhismo, rafting, canoa, tudo o que seja ao ar livre, divertido, sou uma fã de montanha, vamos no verão para as Astúrias, Pirenéus, Alpes, jardins, parques, pistas de bicicleta – fazemos piqueniques no alto da montanha à beira de um lago. Só o entusiasmo dos meus filhos – gémeos de 13 anos – antes das nossas aventuras já é metade da festa. Proibi os telemóveis em férias, conversamos e observamos a natureza à procura de bichos, lugares difíceis para atravessar, pedras tortas para nos equilibrarmos.
Quais são para si os momentos mais sugestivos da história dos Jogos Olímpicos?
Em 1936, nos jogos olímpicos de Berlim, formou-se uma coligação de organizações de judeus e de sindicatos de trabalhadores contra o nazismo. Exigiam a não participação dos EUA. Em 1972 o atentado nas Olimpíadas da Paz. Em 1980 os Estados Unidos da América boicotaram, levando consigo dezenas de aliados, os jogos olímpicos de Moscovo. Em 1984 a URSS respondeu boicotando os de Los Angeles.
O mais marcante momento político veio para mim em 1968, nos jogos olímpicos da Cidade do México, quando dois atletas negros, afro-americanos, Tommie Smith e John Carlos, foram ao pódio receber as medalhas erguendo o punho. Na mão uma luva negra, simbolizando o Black Power, a luta dos negros norte americanos pelos direito civis e a igualdade. O presidente do Comité Olímpico Internacional exigiu de imediato a sua expulsão dos jogos, o que acabou por concretizar-se. De volta a casa foram alvo de ameaças de morte e ostracizados no meio desportivo. Mas nos meios de esquerda do mundo inteiro, no ano do Maio de 68, foram aclamados como heróis.
Alguma vez se projetou na identidade de um grande campeão?
Não, mas Tommie Smith e John Carlos são admiráveis. Também não resisto ao charme do Dr. Sócrates da Democracia Corintiana ou a democracia anti estrelato da Laranja Mecânica holandesa, dirigida por Johan Cruyff no ano do 25 de Abril, 1974. Sou irmã de um desportista profissional, Zé Gregório, surfista, o meu irmão foi tricampeão de surf e o primeiro a entrar nas ondas da Nazaré – sim não foi o Macnamara oh povo subserviente ao que vem de fora! Como o conheço de perto admiro a disciplina, a determinação, capacidade de trabalho e a coragem dele. São qualidades que admiro em qualquer pessoa e que o meu irmão tem.
Como observa a glória que é dispensada aos vencedores e o tratamento dado aos vencidos?
Acho lamentável. O futebol e o desporto profissional em geral foram, como tudo na sociedade, marcados pela mercantilização. Exige-se às crianças treinos intensos federados ao sábado e domingo de manhã mas os miúdos não brincam entre eles, de forma livre, sem a supervisão de um adulto ou sem um objectivo não lúdico. No mundo profissional os clubes são Sociedades Anónimas – não são mais o clube, mas uma sociedade marcada pelo anonimato financeiro. E os pequenos são uma espécie de empresas sub contratadas que alimentam os grandes. Isto é assim para o futebol mas também para outros desportos. Quando os valores associados a isto falirem como um castelo de cartas vai ser catastrófico. Mas isso é o negócio. A negação disso, o ócio, o jogo, é fundamental. Atenção! critico a sociedade anónima, não o desporto profissional – sou uma admiradora do desporto profissional, ver os desportistas vencer a natureza constantemente é encantador.
O desporto é um lugar de união?
Pode ser ou não. Como em tudo. Uma casa pode ser um lugar para fazer amor e cuidar dos nossos ou um espaço de violência extrema e medo. Um campo de jogo também. Um ginásio também. Acredito que os espaços gregários nos ajudam a ser melhores porque compreendemos que não existimos sós. Mas tem que se perguntar para quem, em que condições, para quê se faz desporto? A resposta a estas perguntas vai determinar se o objectivo é unir ou desunir.

 

1 thought on “Tommie Smith e John Carlos são admiráveis

  1. Irmã de José Gregório diretor-geral da QUICKSILVER DE PORTUGAL, hein! Quem diria? Afinal está explicada a sanha contra o jovem empreendedor autor de uma linha de vestuário de skate,eh eh.

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