Carreiras e Serviços Públicos

Esclarecimento sobre a questão dos professores:
 
Quando referi na Revista de Imprensa que se Costa vai rever a carreira dos professores que seja «para melhor» estava a ser irónica. Irónica e não, na verdade. Explico-me. Os trabalhadores portugueses, professores incluídos mas não só, foram aceitando ao longo dos anos não lutar por aumentos salariais e completando os baixos salários com trabalho extra, em média em Portugal trabalha-se entre 50 a 70 horas semanais. 1000 euros está calculado como um salário baixo (estudo do ISEG), que permite apenas a reprodução da força de trabalho, isto é, pagar contas. A maioria dos professores encontra-se em Portugal entre 1000 a 1500 euros, entre os que estão no activo, por isso Costa não quer pagar os 9 anos de trabalho efectivo já prestado. Porque isso implica que porventura algo em torno de 50% vão para a reforma nesta faixa de salários. A rigor não pagar estes 9 anos é não pagar trabalho já realizado e usar o salário diferido (reforma) já prestado para sustentar as imparidades bancárias, que resultam na manutenção do défice baixo, alcançado com esta supressão de salários directos e indirectos.
 
Ora para mim estes são salários baixos e devem ser alterados para subir desde logo no 1º escalão e atrair os melhores e mais capazes a esta profissão. Da qual depende a qualidade de quem vai produzir no futuro. A minha ironia era dupla, se Costa mude a carreira que seja para melhor, e sim, as estruturas de defesa dos trabalhadores, sindicatos e outras, não podem viver eternamente na defensiva querendo conservar o que têm de pouco achando que o pouco é bom. Porque perdem a sua base social que está exausta por acumular trabalhos e horas. Uma parte dos professores com o salário que têm só tem duas hipóteses, ou dão explicações e fazem trabalho extra; ou não têm acesso a produtos culturais que são essenciais à sua formação porque não os podem pagar. Ir ao teatro, comprar 1 livro, se o fizerem uma vez por mês gastarão, 1 vez por mês, com combustíveis incluídos, 10% do seu salário.
 
Fiz e retomo aqui uma declaração de interesses, coordeno para a Fenprof um estudo de uma vasta equipa sobre as condições de vida e trabalho dos professores. Esse estudo já tem hoje resultados provisórios do maior inquérito realizado no país no sector. Vai ser apresentado em Lisboa dia 6 de Julho, no Forum Lisboa. Naturalmente é um estudo cientifico que envolve vários cientistas e nenhum de nos é sindicalizado na Fenprof nem esta alguma vez teve outro comportamento connosco que não fosse o exemplar, sublinho exemplar, comportamento de ajudar em tudo o que pedimos e nunca sugerir qualquer interferência. O empenho da Fenprof na recolha deste inquérito é das mais belas mobilizações de auxilio à ciência que assisti na minha vida como académica.
 
Dito isto quero afirmar também que vejo com bons olhos como cidadã – e com muita curiosidade como estudiosa de conflitos sociais – a actual greve que já envolve mais de 200 escolas que foi chamada por blogues e um pequeno sindicato, STOP, e que está a envolver milhares de professores de forma espontânea, o que para mim releva o extremo cansaço do sector com anos e anos de más condições laborais; a impossibilidade do PS salvar três bancos e parte da sua base social. É evidente que se avizinha uma crise política não só nos professores, no trabalho extra industrial, na laboração continua de milhares de trabalhadores da logística e exportação, nos médicos e enfermeiros, e tudo isto combinado com escassez de força de trabalho devido à emigração pós troika. Sim, não dá para ter sol na eira e chuva no nabal.
 
Eu, como cidadã, desejo sol no Estado Social, ainda que chova a cântaros na Banca e suas eternas imparidades, um nome pomposo para pessoas – não são mercados, são pessoas como nome – que emprestaram valores a quem não exigiram garantias, ganharam os juros desses empréstimos e quando faliram pediram aos nossos impostos, destinados a serviços públicos, para cobrir essas perdas. É imoral, devem perder o que irresponsavelmente assumiram e não pedir a quem trabalha que sustente o que a rigor não existe, sempre foi uma aparência de dinheiro. Estamos em risco sistémico de ficar sem serviços públicos que são a base da nossa civilização.

1 thought on “Carreiras e Serviços Públicos

  1. Entre não darem boas condições aos professores (e demais trabalhadores) e a negociata que foi esta coisa de pagar os desaires da banca eu penso que Portugal, como nação, parou de investir no seu futuro para defender o passado de alguns milionários. E nós todos, permitimos e andamos à cabeçada uns aos outros!

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